ADS 468x60

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

VELHOS AMIGOS DE TEÓFILO OTONI

Após alguns anos retorno ao Bairro onde nasci. Mudou tudo e praticamente não conheço moradores. Penso que o "velho" agora sou eu. Os mais antigos moradores partiram para outras esferas.

Ainda não assimilei a terceira idade e continuo achando que sou um jovem de outrora. Assim, perdido nos meus pensamentos juvenís, fico a procurar meus antigos companheiros que jamais esqueci.

Outro dia encontrei o Perobão. Segundo ele, os velhos companheiros estão em sua maioria vivos. Perobão ensinou-me a encontrá-los e o seu ensinamento fez-me acreditar que somos eternos aprendizes.

Perobão pediu-me que com toda franqueza eu dissesse como ele estava fisicamente. Tentei dizer que ele estava bem, novo e que o tempo não havia deixado-o velho e com rugas.

Após minhas palavras de elogios, Perobão argumentou que eu deveria ter sido político. Na concepção dele, "Político mente com cara lavada" e eu não estava sendo sincero.

Realmente, Perobão estava certo. Eu deveria ter falado a verdade e dissesse que estava velho, feio e barrigudo. Parecia mais um "caco velho de telha cumbuca".

Assim, Perobão ensinou-me a encontrar meus velhos amigos dos anos setenta. Encontrei-os após examinar os calvos, os de cabelos grisalhos e a maioria barrigudos.

Tomando uma Mate-Cola e comendo um "Fofa-cú" no Mercado Municipal com Perobão, perguntei-lhe onde estavam aqueles velhos que tinham banca na feira. Educadamente e ao pé do ouvido ele disse: "Fala baixo, os velhos agora somos nós".


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto em homenagem aos velhos companheiros dos anos setenta em Teófilo Otoni-

domingo, 19 de junho de 2011

Aniversário de Téo Garrocho




Como de Costume Comemoramos o Meu aniversário em Minha Casa Junto de Meus Queridos Filhos Charles Garrocho e Minha Nora Lu, Thiago Garrocho e Minha Nora Cinthia, Gustavo Garrocho, Minha Querida Esposa Maria Das Dores.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

ARLINDO, O CAGÃO DAS BANANEIRAS

Tinha as pernas mais finas que vara de bambú. Os "zoios" eram fundos e boca murcha. Nenhum sorriso até porque com aquela boca desdentada não tinha como sorrir. A barriga imensa retratava a verminose.
Seu nome de batismo era Arlindo. Segundo o povo, os pais deram o nome em homenagem ao ar lindo e sem poluição do Vale do Jequitinhonha. Pois é, aquele Arlindo virou Arlindo: o cagão das bananeiras.
Adorava ir para entre as bananeiras. Diziam as más línguas que Arlindo tinha até ciúmes das bananeiras. Brigava quando escutava alguém dizer: "Corta. Aquilo é bananeira que já deu cacho".
Entre uma que já deu cacho e outra que estava nascendo cacho, Arlindo, Alheio às línguas afiadas do lugar onde "cê tem nada que fazê", percorria aquele labirinto sombrio das bananeiras em busca de sossego para sua meditação vespertina. No bolso da surrada e única bermuda, um bitelo de sabugo de milho para completar e limpar o ato a ser consumado.
Era talvez o único ato solitário de Arlindo. O ato onde ele, apenas ele e suas bananeiras que deram e iriam dar cacho, compreendiam a leveza do momento. O encontro do autodidata intelectual sufocado dentro daquele labirinto de questionamentos sociais.
Pensativo, Arlindo não estava tão só. Alisando o sabugo de milho que roçava o solitário buraco do ato, Arlindo avistava sua companheira galinha cocota que se aproximava em busca das pequenas migalhas da merda de vida que segundo Arlindo, ele e seu povo levava.
Arlindo saia do bananal com satisfação do dever cumprido." As más línguas que se danem", sussurrava baixinho. Carregando sua galinha cocota com papo cheio e feliz, Arlindo ficava a relembrar de um velho padre que dizia sempre na missa de domingo:" Como posso ensinar religião a um povo faminto. Entre um prato de comida e Deus, o povo por certo escolherá o prato de comida".
Assim como o saudoso Betinho, Arlindo alisava o papo da galinha cocota e entendia que " a fome não espera".


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto em homenagem ao saudoso Betinho e sua luta em prol de todos que viviam e ainda vivem na miséria. Barbacena, 06/06/2011,

sábado, 21 de maio de 2011

ENCONTRO MARCADO EM TEÓFILO OTONI

Na esquina da rua Marcelo Guedes com rua Francisco Sá, encontro com "frango de macumba",. Este era o apelido, infelizmente, de um antigo colega de tiro de guerra(Exército) em Teófilo Otoni. Tenho dúvidas sobre seu verdadeiro nome. Penso ser José, Antonio ou Sebastião. Faz muito tempo que servi o exército em Teófilo Otoni.
O tempo passa muito rápido. Quando passamos dos quarenta anos então, parece que "voa". Meu saudoso cunhado Armando Andrade ou Armando "piu-piu" que era irmão do "peixe-cobra", dizia sempre que se " o homem passasse dos quarenta era lucro". Armando acertou. Morreu aos quarenta e dois anos.
Antigamente, a rua Marcelo Guedes no seu início era conhecida por rua do pau velho e a rua Francisco Sá era o Chico Sá ou rua da Zona. Uma rua amada pelos boêmios e excomungada pela tradicional família mineira tradicional de Teófilo Otoni.
"Frango de Macumba", meu velho amigo já tem cabelos grisalhos. Diz a mim que já batalhou muito na vida e ainda não aposentou. Faz pequenos carretos com sua antiga carroça que ainda é puxada a cavalo. Persiste ao tempo obsoleto e à perseguição, segundo ele, da fiscalização da prefeitura e sua lei de postura municipal.
Ele diz que ainda é possível encontrar pasto para seu cavalo ali pelas bandas da favela do boiadeiro e do bairro São Jacinto. Lembro que ali no bairro São Jacinto existia um campo de aviação onde pequenos "teco-tecos" pousavam a exemplo do avião do fazendeiro Chiquito Correia e do empresário Chico Dupim. Lembro que o piloto do Chiquito Correia era chamado de Zé Picolé.
"Frango de Macumba", meu amigo, assim como milhares de brasileiros ainda sonha. Ele me diz que sonha em comprar uma camionete C-10 usada. Segundo ele, o cavalo é bom, mas a C-10 camionete "não caga e não bufa na rua".


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho). Barbacena, em 21/05/2011. Texto dedicado ao meu amigo Manezinho carroceiro, um exemplo de trabalhador em Teófilo Otoni-MG.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

DOIS ANJOS EM MISSÃO

Zé Rosa era pintor. Todos os dias descia o morro da favela do Subaco Fedendo para procurar trabalho na praça Tiradentes de Teófilo Otoni. Zé Rosa era bebedor de cachaça e analfabeto de pai e mãe. Zé Rosa tinha o dom de pintar, da combinação de cores e escrevia letras perfeitas.
As letras perfeitas escritas por Zé Rosa intrigava o povo. "Se é analfabeto, como escreve?". E assim, Zé Rosa era um mistério nas indagações populares. O pintor se defendia dizendo pelos botecos da vida que " tem cego que não enxerga e conhece dinheiro", se referindo a Zé Caolho, seu companheiro de copo.
Zé Caolho e Zé Rosa formavam um par perfeito. Trocavam idéias sobre pintura sob os olhares curiosos do povo que não acreditava ser possível um cego orientar um pintor analfabeto e ébrio diariamente.
Zé Caolho tinha ponto de mendigo próximo à fonte luminosa e ali perto tinha a banca de jornais do Gaitan, onde, todos os dias Zé Rosa passava para folhear jornais. Compenetrado nas manchetes jornalísticas, o ébrio Zé Rosa parecia questionar com alguém no seu imaginário. Ao ouvir a voz do amigo, Zé Caolho dizia: "Esquenta não Zé Rosa, desde que foi criado o homem, só teve notícia ruim. Pode observar que as noticias boas são bem pequenininhas. Elas trazem amor, felicidade, paz. Miséria e desgraça é o que mais vende".
Gaitan, o dono da banca de jornais, ficava curioso pela grandeza de comunicação dos dois e ficava matutando, assim como o povo, como um cego podia orientar um analfabeto. O radialista Élbio Pechir que com ajuda de amigos havia consertado a fonte luminosa, sempre dizia que Zé caolho "enxergava com a alma".
Quando da festa de inauguração da reforma da fonte luminosa com "água de várias cores jorrando", o radialista Élbio Pechir não esqueceu as palavras de Zé Caolho que abraçado a Zé Rosa e alegre pelo efeito etílico, dizia: " A minha alma está feliz e colorida como as águas da fonte luminosa".
Ao som de Gonzaguinha: "...Viver e não ter a vergonha de ser feliz...", Élbio Pechir tentava com sua alma caridosa e fraterna, explicar a Gaitan que Zé Rosa e Zé Caolho eram dois "anjos" que cumpriam missão na terra.



Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho). Barbacena, 04/05/2011. Texto dedicado ao poeta e escritor Jaime Gomes, meu amigo de infância e juventude em Teófilo Otoni-MG.

terça-feira, 22 de março de 2011

A FOTO DO '' BANDIDO'' LULA

Era início da década de oitenta e assim como milhares de brasileiros, eu também lutava e sonhava com liberdade. Após anos de opressão e ditadura, sentíamos que o Brasil precisava mudar e mudanças só ocorrem com participação popular.
Confesso que, àquela época, nunca fui filiado a nenhum partido político. Sempre desconfiei de partidos políticos e por mais que tentasse não conseguia acreditar em políticos e suas promessas em prol do povo. Sempre pensei e penso ainda que há uma grande manipulação das massas oprimidas pela classe política.
Em minhas andanças, conheci muitos políticos e ativistas sociais. Confesso que a maioria foi uma decepção para mim e para muitos companheiros ao meu lado. Ainda assim, alguns me encantaram pela coerência nos ideais. Como exemplo: José Gomes Pimenta(Dazinho), João Rosa de Souza, Apolo Lisboa, Padre Geovani Liza, Maria do Carmo Ferreira da Silva (Cacá de Araçuaí), Iano Maioline e Luiz Inácio Lula da Silva.
A respeito de Lula, gostaria de relembrar um fato que nunca esqueci. Lembro que em 1983, colei uma foto do Lula na porta de entrada da minha modesta moradia. Chegaram uns fazendeiros "meus amigos" para uma visita à nossa família e lembro que um deles disse: " Eu não entendo você ser um homem tão bom e colar a foto de " um bandido" na sua porta".
Sem perder a serenidade disse àquele fazendeiro que "aquele" bandido ainda seria o presidente do Brasil, acreditando ele ou não. E assim mantendo a coerência de ideais, conseguimos fazer de Lula o presidente mais popular da história brasileira.
Anos mais tarde, em visita a uma pequena comunidade rural e já com Lula presidente, tive o "prazer" de rever o fazendeiro que me disse: "Você estava certo".



Autor:Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Barbacena, 23/03/2011- Texto dedicado ao meu saudoso companheiro João Rosa de Souza.

sexta-feira, 4 de março de 2011

UM COICE PARA NEWTON CARDOSO

Em Teófilo Otoni, minha terra natal, tem uma praça linda chamada Tiradentes. É dividida ao meio pela Av. Getúlio Vargas e ali fica o "pulmão" econômico e político da cidade fundada por um senador que não se dobrava aos desmandos da corôa portuguesa e nem compactuava com injustiças. Seu nome era Teófilo Otoni, amante e seguidor do lema: Liberdade, igualdade e fraternidade.
Na praça Tiradentes tudo é vendido e comprado. Debaixo de árvores seculares os visitantes compram as mais belas pedras preciosas e semi-preciosas, além do belo artesanato. Vale a pena visitar a fonte luminosa, o antigo coreto, a primeira máquina "maria fumaça" da antiga estrada de ferro Bahia-Minas que ali fica exposta.
Sobrando um tempo, faça uma visita à banca de jornais e revistas do lendário amigo Gaitan que sempre tem um papo amigo e sabe das novidades da cidade. Vale a pena trocar um "dedinho de prosa" com os aposentados e com os famosos "cambalacheiros" ou corretores de pedras que são centenas a oferecer suas lindas pedras ao turistas.
Estou escrevendo este texto para lembrar de um cambista de loterias muito falante que todos os dias ficava na praça oferecendo loterias. Aquele cambista tinha o dom para vender e o dom para "meter a língua" politicamente no então governador de Minas, Newton Cardoso. Na opinião do cambista "Queiroba", o governador "Niltão" não passava de um "porcão corrupto".
O saudoso Paulo Brandão, conhecido por Paulão, figura folclórica entre tantos que ali frequentavam, gostava de colocar "lenha no fogo do barraco" e assim fazia com que o cambista "Queiroba" soltasse os "cachorros" no governador e na sua administração corrupta, segundo o cambista. Paulão se reunia com vários aposentados, políticos, jornalistas e radialistas, próximo ao antigo chafariz, e ali também debatiam as novidades que aconteciam na capital mundial das pedras preciosas.
Eu gostava quando Paulo Brandão gritava alto: " Ô Queiroba, estive em Belo Horizonte e Newton Cardoso mandou um abraço para você." O cambista retrucava: " Fala prá ele que mandei um coice."


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Barbacena, 3/3/2011. Texto dedicado a Paulo Brandão(Paulão), nosso humilde amigo que partiu para outra esfera.