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sábado, 19 de maio de 2012

OS PLANOS SECRETOS

Todas as anotações e os planos secretos do meu pai Tim Garrocho, em relação à época da ditadura militar, foram secretamente queimados. Infelizmente o DOPS e o pessoal da polícia militar levaram o que sobrou. Até os dias atuais, os dois diplomas de vereador eleito do meu pai, não recebemos de volta. O que foi possível para incriminá-lo, levaram. Inclusive um imenso retrato do comandante Fidel Castro, que ficava exposto na sala do nosso velho casarão, e que deve ter sido pisoteado pelos militares e seus "borra-botas".
Os planos secretos e anotações pessoais que poderiam incriminá-lo ainda mais foram queimados por minha mãe Laura e o amigo Demeterio, em altas horas das madrugadas. Lembro-me que na sala do nosso velho casarão havia um assoalho falso que dava entrada para um antigo porão, e ali, segundo minha mãe e meu pai, foram queimados muitos documentos históricos como: Atas das reuniões da Liga Camponesa fundada por meu pai; lista com nomes de lavradores que, junto com meu pai, planejavam a invasão da fazenda Saudade; panfletos da POLOP(Política Operária); lista com nome dos integrantes do famoso Grupo dos Onze; comunicações e cartas do Brizola; cartas do Ministro Santiago Dantas; mapas de lugares estratégicos de Teófilo Otoni para uma possível invasão e ocupação; livros considerados subversivos naquela época.
Minha mãe Laura conta que " queimou toda aquela papelada porque senão iria complicar mais ainda a vida de Tim Garrocho". Segundo o meu pai, o que mais intrigava a polícia e os órgãos de repressão( segundo informações dos bajuladores da ditadura militar) era que ele havia recebido um carregamentode armas, inclusive metralhadoras para eventuais ações de guerrilha na região de Teófilo Otoni. Nós sabiamos de movimentos do meu pai com armas e homens na região e treinametos num sítio em Itamunhec, zona rural, com pequenas armas.
Segundo Tim Garrocho, este relato é inédito( nem mesmo através de torturas ele confessou estes planos aos torturadores): "As armas seriam conseguidas com invasões comandadas por ele e seus companheiros ao Tiro de Guerra(Exército de Teófilo Otoni) e quartel da Polícia Militar. De posse das armas seriam invadidos locais como: Correios, abastecimento de água potável, locais de distribuição de energia elétrica, hospitais, redes de comunicações e cadeia pública".
Com a queda e exílio do presidente João Goulart, o exílio de Leonel Brizola, a prisão de Miguel Arraes, Francisco Julião e muitos outros, a luta enfraqueceu. Os militares tomaram o poder, sufocando qualquer tipo de resistência civíl naquele momento. Iniciou-se então, um longo periodo de castração das liberdades individuais: O período da ditadura militar.


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho- Texto do livro "Retalhos da Tortura" do autor e editado em 2006.

O CACHORRO DO CABO CLOVES

São 2 horas da madrugada e me encontro numa baita insônia. Viro de um lado para o outro da velha cama que pertenceu à minha avó. Fico pensando no caso que escutei de um cidadão de nome Cloves e que reside na esquina da Rua Marcelo Guedes e Visconde do Rio Branco em Teófilo Otoni. Cloves é cabo reformado da Polícia Militar.
Segundo Cloves, seu cachorro chama-se vaidoso. Isto mesmo, o nome do cachorro do cabo Cloves é vaidoso e "tenho dito", segundo ele, que ainda carrega consigo uma saudade imensa da horrorosa ditadura militar. Cloves disse-me que "quase chegou ao posto de sargento". Não conseguiu por falta de "uma melhor leitura". Segundo ele, "naqueles tempos o caboclo era pegado a laço para ser policial, ou seja, ninguém queria" e assim ficou "cabo daqui, cabo acolá, até se aposentar".
Cloves ainda tem uma pinta de militar. Vive cumprindo horários, faz barba todos os dias, acorda cedinho para caminhadas e faz levantamento de peso com duas latas de concreto penduradas em cada canto de um cano metálico. Carrega sempre no bolso um velho pente fino da marca "Flamengo" e um espelhinho miúdo. Penso que Cloves é tão vaidoso quanto o nome do seu cachorro.
Mas, o que tem tirado o meu sono é que Cloves mentiu para mim ao relatar que seu cachorro vaidoso, após comer uma panela cheia de angu, tem o costume de deixar o focinho bem sujo para ter o prazer de sentir as galinhas bicarem os restos de angu e assim limparem suas narinas.
Depois dessa, não consigo mesmo dormir. Imagino a todo instante uma galinha bicando meu nariz. Sinto cócegas imaginárias e começo a sorrir sozinho. Assim, meus filhos vivem a dizer que estou caducando.
Amanhã vou procurar o Cloves e alertá-lo no sentido de não permitir que seu cachorro vaidoso faça cocô ao lado das galinhas. Imaginem se as galinhas começarem a bicar o cú do vaidoso...


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado ao meu cachorros( isto mesmo) amigos de sempre: Bobi e Lupi. Barbacena, em 19/05/2012.

terça-feira, 8 de maio de 2012

COMEDOR DE BANANA DOS E.U.A



Toda vez que eu ia á Praça Tiradentes em Teófilo Otoni, ficava encabulado com um cidadão. Ele tinha vasto bigode, longa cabeleira e falava coisas com coisas que chamava-me a atenção naquela época em que quase ninguém tinha telefone, televisão, carro e por ai vai. 
Quem tinha um rádio, uma vitrola de música ou uma bicicleta aparelhada com faroletes, era considerado um cidadão de posses e respeitado no lugar em que morava. A primeira vez que vi imagem de televisão ali pelas bandas da Rua do Arrasta Couro, foi coisa de doido para mim e quando relatei o que vi e ouvi, teve até gente que não acreditou. Alguns até disseram que aquilo, a televisão, só podia ser coisa do diabo, chifrudo ou rabudo.
Mas, voltando ao sujeito de vasto bigode e longa cabeleira, eu lembro que ele sempre dizia que "os E.U.A dominariam o mundo". Encabulado, voltava para casa e ao passar próximo à sapataria do Manequinho, um velho comunista do Partidão, eu falava para Manequinho sobre aquela figura humana irreverente e,  Manequinho, muito sábio, dizia-me que aquele sujeito "era doido", "não batia bem das bolas".
Doente mental ou não, sei que aquele homem dizia coisas que nunca esqueci e muitas estão acontecendo nos dias atuais. Ele dizia: " O homem será dominado pela máquina", "o homem será conhecido por um número", " no ano 2000, homens e mulheres vão pular o carnaval completamente nus", " uma máquina dominará o mundo", e assim o homem de vasto bigode e longa cabeleira me encantava com suas previsões há mais de quarenta e cinco anos atrás.
Àquela época, eu achava que ele era um espião dos E.U.A que estava á procura de comunistas brasileiros ou tentando descobrir os segredos dos garimpeiros de pedras preciosas na região. Mas, quando eu argumentava com Manequinho sapateiro sobre a inteligência do suposto espião americano, Manequinho retrucava: " Aquilo não passa de um puxa saco e comedor de bananas dos E.U.A. Fim de papo "Garruchinha" que eu quero fechar minha sapataria. Hoje tem reunião do Partido Comunista Brasileiro".


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado a Doutor Jorge Medina, filho de grande homem e ex. preso político Nestor Medina. Barbacena, em 8/05/2012

sábado, 14 de abril de 2012

PERDEU, SENADOR, PERDEU...



Eu conheci um corrupto assumido nas minhas andanças. Uma certa vez ele disse-me que "a corrupção é um vício". Segundo ele, "se o sujeito aceitar a primeira propina, não para mais". Deve ser por isso que ele ficou rico em bens materiais em tão pouco tempo.
Ultimamente, os casos de corrupção estão aparecendo com mais frequência na mídia. Tudo leva a crer que o cidadão que ocupa cargos públicos, seja na esfera municipal, estadual ou federal, terá que pensar (se é que pensa) seriamente como administrar e aplicar o erário público.
Eu conheci e trabalhei ao lado de uma moça negra que foi prefeita de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha. Seu nome era Maria do Carmo Ferreira da Silva (Dona Cacá). Aquela prefeita sempre me dizia que "se não roubar, o dinheiro (ainda que pouco) dá."
É verdade. Uma administração honesta e transparente tem grande chance de ser vitoriosa aos olhos Deus (o grande arquiteto do universo) e aos olhos do povo de onde o poder emana. Confesso que já convivi e vi muito político(?) safado e demagogo chorar em comício ou em reuniões com pessoas humildes, já observei muito ego vaidoso, já presenciei muito gesto prepotente, já presenciei muita injustiça, já presenciei muito "Zé não" nas minhas andanças políticas e assim por não concordar e compactuar com toda essa nojeira ai de cima, abandonei muitos cargos de assessoria política.
Então, a gente começa a acreditar que realmente a plantinha da honestidade começa a ser bem cuidada e começamos a acreditar que estamos vivendo numa pátria onde as autoridades de bom senso estão trabalhando e dando uma resposta à sociedade.
Penso que há de melhorar muito a precária saúde pública, segurança pública, estradas, transporte coletivo, educação, saneamento básico, melhores salários aos agentes públicos, assistência aos dependentes químicos, etc...etc...
Assim vamos limpando da vida pública brasileira, aqueles e aquelas que dançam no plenário da câmara federal (casa do povo) em homenagem à absolvição de corrupto do mensalão, aqueles que estão pouco se lixando para o povo, aqueles que dão bananas para o povo, aqueles que preferiam o cheiro do cavalo em vez do cheiro do povo, aqueles que dizem roubar, mas fazem(?), aqueles que empregam maridos, esposas, filhos, primos, genros, apadrinhados políticos e aqueles que sem nenhuma vergonha e respeito ao sagrado,
agradecem a Deus(?) pela propina recebida.
Voltando ao título deste texto, " Perdeu senador, perdeu...". Ainda que o teu nome signifique " A força do povo", o cidadão Demóstenes perdeu. "Isto é uma vergonha".


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado a João Rosa de Souza, fundador do Partido dos Trabalhadores em Teófilo Otoni. João Rosa, um exemplo a ser seguido pelas futuras gerações. Barbacena, em 14/4/2012.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

FOMOS E SOMOS TODOS IGUAIS EM TEÓFILO OTONI



Na minha juventude, talvez por influência do meu pai que era muito ligado ás pessoas mais humildes, não frequentei ambientes muito luxuosos ou elitizados de Teófilo Otoni. Estou escrevendo este texto para preservar um pouco da história e memória da nossa terra natal Teófilo Otoni, onde, nas décadas de 60 e 70 vivi intensamente. Àquela época, apesar da nojenta ditadura militar e sua opressão, tínhamos uma juventude muito politizada.

Pois bem, para não deixar a memória esquecer, gostaria de começar pelos cinemas onde eu e muitos da nossa juventude frequentávamos o Cine Império ( o popular poeira) onde cheguei a assistir muitos filmes de Bang-Bang. Assisti ainda filmes no antigo cine Ideal que ficava no Bairro Manoel Pimenta (Antiga Vila do Veneta). Lembro também que um senhor de nome Moacir Pungyrum, construiu um prédio para cinema na Vila Verônica e que seria um novo cinema. O prédio desabou antes da inauguração....graças a Deus!!!
Frequentei clubes simples de danças onde havia grande frequência de filhos e filhas de trabalhadores. O Sete de Setembro(Caninha Verde) ainda existe até os dias atuais e fica ali próximo á Praça Germânica(Praça dos Alemães).

Havia também o clube Concórdia que ficava ali na subida da Rua João Lorentz (Morro do América) e o eterno clube do São Benedito na Vila Barreiros, onde, aos sábados era tanta gente que ficava até difícil para entrar. Lembro ainda que tanto eu como vários amigos de juventude passávamos antes no centro espírita de dona Maria José Leite, para tomar um "passe" de algum pai de santo, até chegar no clube que ficava pertinho.

Era comum, depois do cinema das 20 horas, a turma ir para a zona boêmia ( Chico Sá, Beco do Waldemar, Buraco Doce) . A gente tinha o costume de entrar nas inúmeras boites com luz negra e se encantar com mulheres de decotes curtos e saias bem curtinhas. Era o "paraíso" para nós jovens amantes da carne e o inferno para os conservadores engravatados da tradicional família burguesa de Teófilo Otoni. Altas horas, ainda tínhamos tempo para dar um pulo até a famosa zona boêmia do Carrapatinho que ficava ali na entrada da Vila Verônica, ou, no Curral das Éguas que ficava próximo á antiga Rua do Arrasta Couro.

No futebol, tudo era festa. tinha vários campos de futebol. Cansei de jogar futebol no campo do antigo D.E.R no final da Bela Vista , no belo campo do antigo São Benedito Futebol Clube na Vila Barreiros, Carecão da Vila Pedrosa, Campo da Igrejinha de Nossa Senhora dos Pobres na Vila Verônica, Campo da Vaquejada na João Lopes da Silva, Campo da Turma 37, Campo da Jaqueira, Campo do Marajoara, Campo do Pontilhão no Bairro Palmeiras. Os times de várzea eram tão bons que alguns ficaram famosos a exemplo do Estação que era um bicho papão e tinha grandes jogadores em seu elenco como Toninho Almeida que mais tarde se tornou profissional jogando pelo grande Cruzeiro de Minas Gerais.

Também aos domingos tinha o famoso matinal X7 no Cine Vitória e que era comandado pelo senhor Lourival Pechir, o pioneiro da Rádio em Téofilo Otoni. Certa vez, cheguei a inscrever-me no programa de calouros para cantar a música "Querida" de Jerry Adriane, mas, faltou coragem na hora de enfrentar o palco e a multidão. Desisti e até perdi a namorada...

Difícil acreditar que tomamos muito banho no Rio Todos os Santos ali pelas bandas do "Quente Frio" que ficava abaixo do Clube Palmeiras e ao lado da Avenida Alberto Laender. Se, ali já era gostoso tomar banho, imagine uma turma de jovens seguindo para os lados da Suíssa e Cachoeirinha que ficava no final do Bairro Palmeiras e Gangorrinha.

Altas horas da noite e sem medo da repressão, ainda tínhamos tempo, com Rossine, Bida, Jaime Gomes, Ivan Cavalcante, Jorginho "maravilha", Gera Prates, Adelson, e outros, tempo para cantar "caminhando e cantando" de Wandré...


Autor:Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado ao meu amigo de juventude, Jaime Gomes, autor do livro " Um trem que passou em minha vida"- Poeta e escritor do Vale do Mucuri- Em 06/03/2012

NÃO ERA PECADO



Eu sou de um tempo em que tudo era pecado. Cresci, ouvindo que eu estava pecando ou prestes a pecar. Para completar, diziam que poderia passar uma temporada sobre as brasas do inferno e ainda cutucado a todo momento pelo ferrão do vermelho e chifrudo rabudo. Isto mesmo, capeta vermelho. Áquela época eu já tinha uma leve impressão que criaram a cor vermelha para demonstrar que aqueles que eram comunistas, a exemplo do meu pai, tinham parte com o rabudo.
Dona Chiquinha Ottoni dava aulas de catecismo para mim e vários companheiros de infância da antiga Vila Verônica, onde nasci. Uma certa vez , olhando para o firmamento ou céu como queiram, disse para dona Chiquinha que "o tempo tá prá chuva". Imediatamente ela puxou minha orelha e disse que "era pecado", pois só Deus sabia o tempo de chover. Assim, como castigo para o perfeito perdoar-me, eu tinha que rezar cinco pai-nosso, cinco ave maria e um credo.
Então, fui crescendo meio na dúvida em relação ao pecado. Afinal, eu era filho de um comunista e "tinha a quem puxar" segundo dona Chiquinha. Para fortalecer o pensamento dela, eu era o único a questionar aquelas penitências de carregar pedras na cabeça até o alto da igrejinha nossa senhora dos pobres e cantando orações pedindo chuva a Deus.
Meu pai, velho comunista, dizia que as melhores terras do Brasil ficaram nas mãos dos grandes latifundiários ou na mão dos imigrantes de olhos azuis. Meu pai dizia também que naquelas terras, as chuvas eram abundantes, com fartura e ai...eu perguntava a dona Chiquinha: "Deus esqueceu de nós?"
O tempo passou. Hoje, ao assistir o jornal na televisão, escutei falar que não vai chover no feriado prolongado da semana santa. Veio a lembrança de uma época em quase tudo era pecado. Meu pai, velho comunista, continua murmurando que pecado é uma pátria sem justiça social.

Autor:Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado ao meu amigo de juventude, Ivan Cavalcante, grande jogador de futebol dos anos setenta no Concórdia Atlético Clube de Teófilo Otoni. Em 06/03/2012.


sábado, 31 de março de 2012

EU QUERO MORRER...



Quando tirei férias, estive em Teófilo Otoni e visitei vários amigos. Entre um abraço aqui e um aperto de mão dali, tive a grata surpresa de rever minha antiga amiga e companheira velha de guerra contra a ditadura militar, a prostituta Lora, que, sempre irreverente, abraçou-me com força dizendo que nunca esqueceu das lutas em prol da liberdade da pátria.
Senti, naquele momento, que Lora já tinha tomado algumas cachaças devido ao cheiro exalado fortemente em minhas narinas. Ela me dizia que tinha algo a me falar e tomamos o caminho para a Praça Tiradentes em busca de um solitário banco de praça para que tanto ela, como eu, lembrasse nossas fraquezas, nossas angústias, nossos sonhos...
Então, Lora disse-me: " Olha Téo, estou pensando na possibilidade de morrer. Tanto faz dormindo, bêbada, câncer de pulmão ou laringe(como Lula), aneurisma, pneumonia, tuberculose,etc...etc..., o que importa é morrer e pronto. Quero dar trabalho para enterrar a matéria e quero dar trabalho na chegada ao paraíso ou ao inferno,
Quero, meu amigo Téo, passagem direta, nada de paradas em esferas X ou Y, quero passagem sem muita burocracia espiritual. Tem que ser sim, sim, não, não, nada de baldeação, nada de jeitinho de vou rever sua trajetória terrestre. Ou é céu ou é inferno.
Quero dar trabalho para enterrar a matéria. Correria, cartório, dinheiro para caixão, lenço para lágrimas, aviso fúnebre nas rádios, serviço para coveiros, compra de roupas fúnebres, despesas com flores, velas e sem contar que a caminho do cemitério mais trabalho para o trânsito e transeuntes se benzendo, orações, reflexões e o eterno "vai com Deus".
No meu velório vou dar trabalho para mim mesma escutando a todo momento que fui uma boa mulher, honesta e trabalhadora. Era uma vadia, mas tinha bom coração, Deus tenha misericórdia da alma dela, uma grande mulher, uma guerreira, vai fazer falta e etc...etc...
Quero, meu amigo Téo, revesamento naqueles que vão pegar na alça do meu caixão. Nas alças do fundo quero dois mentirosos e enganadores do povo que podem ser políticos. Nas alças do meio quero dois que dizem pregar a palavra de Deus e são tão mentirosos quantos os políticos. Nas alças da frente quero meu pai e minha mãe, para que quando eu chegar no céu ou no inferno, lembrar que eles me deram o dom de viver nesta porcaria de mundo terrestre e nunca, nunca me pediram nada a não ser amá-los e respeitá-los.
Após tanto trabalho, amigo Téo, gostaria que alguém da minha família ou você mesmo meu velho companheiro de lutas sociais, gostaria que fizessem uma placa com os seguintes dizeres para colocar na minha sepultura: "aqui descansa em paz uma mulher que tinha pavor de ditadura, torturador, relâmpago, trovão, vento forte, temporal, eletricidade e botijão de gás".
Para encerrar, meu companheiro Téo, não esqueçam de fechar o portão do cemitério. Vou dar trabalho no céu ou no inferno. Os santos e os capetas, se é que existem, me aguardem".
Depois deste longo desabafo num banco solitário da praça Tiradentes, eu e Lora fomos tomar uma cerveja gelada para relembrar os velhos tempos de luta contra a ditadura militar.


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado a Angelina, uma inteligência rara que conheci em Ipatinga na década de 1970- Barbacena, em 31 de março de 2012( Data da vergonha nacional brasileira)