ADS 468x60

quarta-feira, 15 de maio de 2013

TESTE DA VIDA EM TEÓFILO OTONI

Tinha passado em todos os testes. Bastou um sorriso na entrevista para ser reprovado. segundo o entrevistador, Jacó tinha um dente preto. Foi um desespero para Jacó que via naquele emprego a oportunidade de dias melhores. 
Jacó alegou que aquele preto que o entrevistador viu no seu dente não era cárie e provavelmente seria uma casquinha de feijão esquecida por não ter escovado os dentes. Não houve consenso. Jacó enfiou a unha, cutucou daqui e dali, tentou e não deu certo. Parecia aquelas casquinhas de piruá oriundas de milho de pipoca. Quando grudam na gengiva, não saem fácil.
Jacó apelou para um palitinho de fósforo. Piorou quando a ponta do palito furou sua gengiva e sangrou. Misturou o preto do dente com o sangue vermelho. O entrevistador era vascaíno, detestava rubro negro. Como não houve acordo, Jacó não conseguiu o tão almejado trabalho. Ficou para outra oportunidade.
Jacó estava indignado. Na verdade aquilo não era casquinha de feijão. Jacó lembrou que havia chupado umas jabuticabas, horas antes da entrevista. As jabuticabas foram doadas pelo seu tio Zé Cachorro e alguma casquinha ficou grudada. Para piorar, no dente da frente. "Maldito tio Zé Cachorro", esbravejava Jacó, " malditas jabuticabas", gritava com ódio no coração.
Mas, ao contrário do que pensou, seu tio Zé Cachorro era uma benção de pessoa. Homem amável, caridoso e fraterno. O apelido veio justamente por fazer o bem em retirar das ruas os cachorros abandonados e dar-lhes abrigo, comida e carinho ali pelas bandas do pacato Bairro das Palmeiras em Teófilo Otoni, onde por sinal reside meu bom amigo de futebol e juventude, o professor Isaías Lemos.
Como tudo passa, uma semana depois, Jacó foi chamado para outra oportunidade de trabalho. Passou nos testes novamente e na entrevista não sorriu. Jacó fez cara de mau, de homem "macho" e bravo. Assim, Jacó foi reprovado. Questionou daqui, questionou dali e recebeu como resposta do entrevistador: " Olha senhor Jacó. o senhor tem que mirar no exemplo do seu tio Zé Cachorro que vive sorrindo e tem amor no coração. Este emprego é para ajudar na criação de crianças abandonadas e com este rosto tão sisudo, o senhor não vai levar alegria e felicidade ás crianças".
Assim, Jacó saiu dali decidido a mudar sua postura diante da vida. Tudo indica que Jacó entendeu que não devemos fixar nossos problemas e pensamentos numa simples casquinha de feijão ou jabuticaba "da vida". Existem coisas maiores e mais edificantes como o amor de seu tio Zé Cachorro pelos animais abandonados.


Autor:Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado aos meus amigos de futebol e juventude, Professor Isaías Lemos e Ilton Lemos, filhos do saudoso senhor Dão "Barbeiro" em Teófilo Otoni-MG. Em 15/05/2013, Barbacena-MG.

domingo, 12 de maio de 2013

CARUÊ, VOCÊ ERA O CARA DO FUTEBOL EM TEÓFILO OTONI.

Quando se comenta futebol em Teófilo Otoni, os mais antigos não esquecem de citar o nome de Caruê que na verdade se chamava José Gregório. Caruê, talvez, seja o nome mais conhecido no nordeste mineiro que teve grandes jogadores a exemplo de Toninho Almeida, Baianinho, Pedro Heleno, Joaquim de Sadi, Alema, Danda, Ivan Gazzinelli , Cadinho, Zé Rolinha, Lalado de Araçuaí, Pablo de Novo Cruzeiro, Zé de Duca de Ataléia, Lugão, Cinzento e Gildázio do Borroló de Carlos Chagas e recentemente Fred e Fael. 
Caruê, quando jogou pelo América de Teófilo Otoni, encantava a todos com sua elegância em conduzir a bola dando dibles, passes perfeitos e fazendo gols maravilhosos. Conheci Caruê nos idos de 1971 quando joguei algumas partidas pelo América e tive a honra de atuar ao seu lado. Ele ainda tinha uma nobre missão de formar escolinhas de futebol no Estádio Nassiri Mattar. Além de excelente jogador, treinador, Caruê era um bom amigo, bom papo, amigo dos jovens e de todos em Teófilo Otoni.
Com muita tristeza, fiquei sabendo do falecimento de Caruê. Torço para que seu nome não caia no esquecimento do povo e principalmente daqueles que enriquecem nossa cultura e com muita dificuldade ainda conseguem perpetuar a história e memória do nosso povo em Teófilo Otoni.
Caruê foi um mito. Um exemplo  a ser seguido por todos que praticam o esporte e gostam da nossa terra natal. Assim, penso, temos que perpetuar para as novas gerações o nome, a vida e a obra do inesquecível José Gregório, nosso querido e saudoso Caruê.


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado ao meu amigo poeta, historiador Dr. Igor Sorel de Teófilo Otoni-MG- Em 12/05/2013, Barbacena-MG.

CORTADOR DE CANA EM ARAÇUAÍ

Debaixo de um sol escaldante, Firmino só tinha um pensamento: Chegar em casa. Haviam duas horas que tinha vindo a pé do distrito de Engenheiro Schnoor em direção a Ribeirão das Almas, povoado onde residiam seus pais e irmãos.
Firmino, assim como muitos jovens naquela região, voltava do interior de São Paulo onde sua profissão era cortador de cana. Todos os anos, os homens daquela região vão no início e voltam no final de ano. É uma "guerra" sem fim para milhares de jovens que habitam uma região sem muitas oportunidades.
Segundo Zé Tico Tico, um aposentado do corte de cana no interior de São Paulo, " breve vai acabar a ida dos jovens para São Paulo. As máquinas estão dominando tudo", diz Tico Tico que tem fama de homem sábio e entendido naquela região.
Firmino tem 25 anos, mas, aparenta ter mais. Seu rosto em pleno vigor da juventude já carrega marcas de um envelhecimento precoce. Tico Tico diz que Firmino será em breve mais um "rosto parecido com maracujá seco e corpo de "pelancas", assim como ele e a maioria dos aposentados do corte de cana. "É preciso que o governo tome providências e crie políticas públicas eficientes para este povo sofrido", brada Tico Tico em bom tom.
E Firmino chega em Ribeirão das Almas ao som do barulho de fogos de artifício que pipocam no céu solitário de uma terra sofrida, a exemplo de vários povoados naquela região. O velho cachorro Xerife dá pulos e uiva de contentamento. Os pais, irmãos e amigos dão glória ao senhor construtor do universo e bem ao fundo tem Zefinha, o primeiro amor de Firmino que não vê a hora de pular nos braços do guerreiro que volta vivo de mais uma guerra social nesta pátria de todos.
À noite no terreiro do quintal, todos se ajuntam em volta de Firmino para escutar as novidades de São Paulo, para muitos ainda, a "terra prometida". Até o Zé Calango bebeu menos pinga naquela noite onde a lua parecia sorrir e as estrelas brilhavam como um raio de esperança para todos naquele lugar tão distante e esquecido pelos poderes públicos.
Zefinha, que há muito tempo vem derramando lágrimas de saudade, era só alegria nos braços fortes do amado cortador de cana que, entre um beijo daqui e dali, tinha tempo para sorrir a todos e afagar a cabeça do cachorro Xerife.
Zé Tico Tico, ao presenciar tão bela cena, arrisca um palpite e diz: " Se a gente aqui tivesse mais assistência, a gente seria sempre mais feliz". Zé Calango ao escutar, retrucou: " O Tico Tico devia ser era político".


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado ao meu compadre João Caboclo, cortador de cana aposentado de Engenheiro Schnoor, Município de Araçuaí-MG. Em 12/05/2013. Barbacena-MG.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

NOS VELHOS TEMPOS EM TEÓFILO OTONI

* Para transportar defuntos considerados indigentes, era usada uma pequena camionete tipo "furreca" na cor preta e que era dirigida pelo senhor Moacir Pungyrum.

* O morro do Pela Jegue ficava próximo ao morro do eucalipto e ganhou este apelido devido uma senhora que plantava hortaliças, ter jogado água fervendo num jegue que andou comendo suas verduras.

* A Rua do Cocá Pelado que fica na Vila Barreiros, teve esse nome devido um senhor que criava muitas galinhas d´Angola naquela localidade, dai o nome Cocá Pelado.

*Em alguns antigos comícios políticos, o povo era transportado para assistir em carrocerias de velhos caminhões. Tanto senhores, senhoras e crianças.

*Durante muitos anos, os estudantes tinham o costume de comprar um doce chamado de " Quebra queixo" na entrada dos colégios e era muito apreciado por todos.

* Na zona boêmia que ficava na Rua Francisco Sá, tinha um lugar de encontros amorosos que era conhecido por " Buraco Doce".

* Jorge "Sem Bronca" era um apaixonado torcedor do Concórdia Atlético Clube. Jorge era famoso por assistir todos os jogos do CAC com um  rádio portátil ao "pé do ouvido" e repetindo sempre um velho jargão: " Sem bronca, sem bronca".

* Duas duplas de futebol ficaram famosas, Cadinho/Ivan e Alema/Danda.

*Quem vinha de animal para as feiras de Quarta e Sábado, deixavam seus animais estacionados no quintal de Dona Inêz Garrocho. O "estacionamento" era administrado" pelo seu filho Wilson Garrocho.

* A Casa Primor era do senhor Pedro Carneiro, a Casa Veloso era do senhor Samuel Veloso e a Casa Carvalho era do Senhor Manoel Carvalho.

*Tinha uma sorveteria de nome Sibéria que ficou famosa por vender um picolé de nome " espumoni".

* No mercado municipal tinha um armarinho que vivia lotado de mulheres comprando aviamentos para suas costuras. O nome do armarinho era Iara.

* Na Igreja de Bom Jesus, do lado de fora, existia um sino muito apreciado pelos estudantes do antigo Colégio São José, que, na saída, se penduravam no mesmo e badalavam à vontade.

* Muitas ruas pequenas receberam nome de becos e travessas e ficaram famosas a exemplo do Beco do Coelho, Beco da Lealtex, Trravessa do Café Epam, Corrredor Gazinelli, Beco do Rex, Beco da Mate Cola , Beco da Jaqueira.

* Alguns jovens usavam uma certa calça Lee americana com boca de sino e uma tira mais clara chamada de "nesga".

* Existiam, além da zona boêmia do Chico Sá, outras muito conhecidas que eram  o " Curral das éguas" e o "Carrapatinho".

*Oldack Miranda tinha uma casa de comércio com o nome de Casa Miveste. O saudoso Oldack era pai do Deputado Nilmário Miranda.

* Apelidos engraçados eram dados a morros de Teófilo Otoni a exemplo de Morro do Subaco Fedendo, Morro do Feijão Bebido, Morro do Cata Quiabo, Morro do Quenta Sol, Morro do Sossego, Morro da Paia, Morro do América, Morro do Bispo, Morro da caixa D´Agua, Morro do Concórdia, Morro da LBV, Morro do Altino Barbosa, Morro do Pela Jegue, Morro da Jaqueira, Morro do Cemitério, Morro do Pau Velho.

* O Rio Santo Antonio que passava próximo ao antigo Colégio São José, recebeu dos estudantes o apelido de "Toddy", devido suas águas serem de cor parecida ao achocolatado. Coisa de estudante!!!

* Chiquito Correia tinha um avião e diziam que seu piloto tinha o apelido de Zé Picolé.

*Segundo alguns militantes que ainda estão vivos, ali na Rua antiga Rua do Arrasta Couro( Hoje Victor Renaut), existia um hotel chamado de Hotel dos ferroviários e ali funcionava uma célula do Partido Comunista do Brasil e uma outra da POLOP ( Política Operária) ligadas á Extinta Estrada de Ferro Bahia-Minas.

* Alguns bares e lanchonetes ficaram muito conhecidos e frequentados ' aquela época´ a  exemplo da Churrascaria Cristal, Bar Tremendão. Bar Papo Firme, Bar Pé de Boi, Bar Jambori, Bar do Augustinho, Bar Chopotó, Bar Bem Bolado, Bar Barranco, Bar do Seo Arruda , Bar Centenário, Miscelânia Carioca, Mercearia Eny, Bar Lider, Bar do Jetão.

* Tinha um vendedor de geladinho que ficou famoso com um antigo jargão: " Chupa Lili, tá doce e tá frio".

* João Gabriel da Costa (SEO NÔ) era quem enterrava os mortos. Tanto pobre, rico, preto ou branco. Seo Nô era autoridade. Foi Delegado e vereador em Teófilo Otoni. Seu enterro foi o maior em acompanhamento na história de Teófilo Otoni.

* No mercado Municipal haviam muitos vendedores do fumo de rolo e um deles se tornou vereador em Teófilo Otoni. Ele era conhecido por Arnô do Fumo.


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado ao meu saudoso amigo João Gabriel Salustiano Costa ( João de Nô)- Barbacena, em 10/05/ 2013

quarta-feira, 8 de maio de 2013

FUTEBOL ANTIGO NA VERÔNICA EM TEÓFILO OTONI

Betão " pé de anjo" nasceu no povoado de Sucanga que fica próximo a Poté e Valão. Antigamente a estrada de ferro Bahia-Minas passava por ali. Eu, quando jovem, ia muito a Valão para jogar futebol e uma certa vez nós perdemos o trem de volta e tivemos que andar a pé uns trinta quilômetros até Teófilo Otoni.
Pois bem, Betão "pé de anjo" era oriundo daquelas bandas e veio muito jovem para trabalhar em Teófilo Otoni, cidade polo mais próxima que "tava fichando" gente para trabalhar. Assim, ele não precisaria ir para o corte de cana no interior de São Paulo.
Pé de anjo tinha um problema. Como foi criado na roça, ele nunca tinha calçado sapato e vez ou outra usava uma famosa "precata" feita de tiras de borracha e solado de pneu. Quem nasceu ou viveu na roça nos Vales do Mucuri e Jequitinhonha, conhece bem a famosa "precata".
Em Teófilo Otoni, Betão foi morar na antiga favela do "pela jegue" que ficava ali no alto do morro do eucalipto. Quando eu era rapazinho, joguei muito futebol mo campo do "pela jegue". Sempre tinha futebol da Vila Verônica contra os meninos do alto do Eucalipto e era disputa ferrenha nos gramados do "estádio" do pela jegue.
'Aquela época, nem todos podiam comprar um par de chuteiras que era um artigo de luxo. Quando ganhei meu primeiro par de chuteiras, a famosa marca Gaêta, quase "botei um ovo de alegria". A maioria jogava mesmo era descalço.
Bola pra cá e bola pra lá indo para no meio de um mato cheio de espinho tipo "carirú" bravo. Ninguém ia lá buscar a bola. Com uma coragem invejável, Betão corria entre os espinhos e trazia a pelota para alegria de todos. Assim, nasceu o apelido de Betão "pé de anjo".
Seo Oswaldo, apelidado de Oswaldo "suco de cana", antigo treinador do Vila Rocha Esporte Clube, fazia questão de escalar Betão "pé de anjo" nas partidas ou levá-lo como roupeiro e massagista do time. Nem bem a bola caia no espinheiro ou no meio do mato, seo Oswaldo gritava: "Vai que é sua pé de anjo".
Há muito tempo não tenho notícias do pé de anjo. É bem provável que ele já tenha partido para outras esferas a exemplo de João Moleque, Zé Mário, Jabuti, Zé Muriçoca, Elcino e outros inesquecíveis companheiros de infância e juventude na Vila Verônica em Teófilo Otoni.
São Pedro, caso pé de anjo esteja por lá, deve estar feliz. Afinal, São Pedro não vai buscar bola no espinheiro do inferno. Essa missão certamente ficará sempre para nosso saudoso Betão "pé de anjo".


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado ao meu saudoso amigo Márcio "braga". Antigo roupeiro e massagista dos times de várzea da Vila Verônica em Teófilo Otoni nos anos de 1970. Barbacena, 08/05/2013.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A RIQUEZA TEM ASAS EM TEÓFILO OTONI

Nas minhas andanças pelo Brasil, escutei mais do que falei. Em alguns estados do Brasil, as pessoas diziam que eu era assim calado por ser mineiro. Mas, confesso que escutei muito tudo aquilo que ouvia nas igrejas, nos pontos de ônibus, nas escolas, nas fábricas onde trabalhei, nos campos de futebol e principalmente na minha solitária militância política.
Eu fui jogador de futebol amador pelo América de Teófilo Otoni, São Benedito da Vila Barreiros, Cruzeiro de Teófilo Otoni e outros times amadores. Jogando futebol, eu era tão calado que meu antigo técnico chamado Caruê , gritava desesperado: "Acorda Téo, que o jogo já começou a dez minutos". Mas, eu só começava a jogar bonito mesmo era depois de tomar a primeira pancada ou cacete do adversário.
Penso que a gente precisa tomar umas pancadas na vida para que cresçamos e nos tornemos um exemplo de vida para nós e a as pessoas que nos cercam.Acho que somos uma pedra bruta que após passar por um processo de lapidação tornam-se uma preciosidade aos olhos da sociedade e uma quase perfeição aos olhos do arquiteto Deus, o inigualável perfeito.
Uma certa vez, fiz uns escritos sobre a ganância do ser humano por lucros financeiros, bens materiais, holofotes da mídia, ego vaidoso, etc, etc. Um certo advogado, meu conhecido, abordou-me ali pelas bandas da Praça Tiradentes  de Teófilo Otoni e disse-me: "Olha Téo, eu li seu texto. Só que aqui no plano terrestre os homens só são iguais na horizontal". Se bem entendi, ele quis dizer que nós só somos iguais quando morremos e somos enterrados na horizontal.
Há muitos anos que não tenho noticias daquele advogado. Penso que o mesmo já tenha entrado para o seu mundo dos iguais em sua concepção de vida. Por certo, não percebeu e entendeu que nenhum caminhão de mudança com seus pertences e tesouros, acompanhou seu cortejo fúnebre até o campo dos iguais, segundo ele.
Falando em enterro, lembrei de um padre muito famoso pelas bandas do Vale do Mucuri que se chamava Zoel. Boa pinta e falante, padre Zoel era o tal. Tinha o costume de detestar marxistas ou leninistas da vida, principalmente em sua região. Afinal, ele não gostaria  nunca de  perder as boquinhas do poder. Uma certa vez perguntei ao padre Zoel como ele se sentia usando carros, roupas e joias vistosas aos olhos de um povo tão pobre como os do Vale do Mucuri e Jequitinhonha. A resposta veio rápida como uma consulta do trabalhador junto ao INPS ou SUS como queiram: "Olha Téo, Sou padre mas não sou burro".
E assim, padre Zoel me deixou sozinho matutando quem de fato era burro. Seria eu? o povo?. Burro ou não, avistei o padre Zoel dando gargalhadas com o prefeito e seus saltitantes assessores. Pois é, a luta, aliás, a vida continua meu povão do Vale do Mucuri.



Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho( Téo Garrocho)- Texto dedicado ao meu amigo de sandálias velhas e surradas, Padre Geovani Lisa de Teófilo Otoni que me ensinou, assim como Mário Lago, "Que é na minha cidade ("junto com o povo") que começamos a ser felizes". Barbacena, em 13/02/2013.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O PAU COMEU NO SUBACO FEDENDO DE TEÓFILO OTONI

Confusão era ali mesmo. O pau comia quase todo dia e noite no subaco fedendo de Teófilo Otoni onde praticamente fui criado. Se a gente falava que morava perto do subaco fedendo, a discriminação era quase total àquela época em Teófilo Otoni.
Eu particularmente, adorava o subaco fedendo e seu povo. Ali tinha de tudo. O povo em sua maioria eram trabalhadores e trabalhadoras que poderíamos denominar de engraxates, faxineiras, biscateiros , pedreiros, carpínteiros, lavadores de carros, funileiros, limpadores de campas no cemitério, parteiras e etc. etc.
Assim como em Brasília, no subaco fedendo tinha também muito ladrão de todo tipo. A única diferença era que no subaco os ladrões não tinham terno e gravata. No subaco, quando a policia prendia o meliante, o caboclo já descia o morro tomando cacete e porrada até chegar na delegacia. Diferente de Brasília onde os ladrões dificilmente são presos e nem sequer tomam um tapa. Pelo contrário, saem até nas capas de revistas elitizadas do Brasil.
No subaco fedendo, na época, tinha sem exagero uns vinte centros de umbanda. Era comum a prática do umbandismo e cansei de ver pessoas consideradas ricas frequentando os terreiros de umbanda. Os meninos do subaco fedendo adoravam olhar carros e ganhar alguns trocados dos  supostos milionários de Teófilo Otoni.
No subaco fedendo tinha muita mulher bonita e muita mulher feia também. Tinha mulher de lábios carnudos e dentes alvos. Também tinha muita mulher de boca banguela que sonhava em colocar um par de "chapa" na boca, isto é, uma dentadura. No subaco fedendo tinha cabaré com prostitutas para a gente praticar sexo e se ali não fosse possível, a gente descia e tinha dois cabarés famosos que eram o carrapatinho na rua Teófilo Rocha e o curral das éguas que ficava na rua do arrasta couro.
No subaco fedendo não tinha água. Talvez dai o apelido. Banho só na lagoa da alegria ou no rio santo marcolino onde tinha um campinho de futebol chamado de campo do Zé  Ramiro, filho do cabo militar Ramiro Pedro Ferreira.
Lá de cima do morro do bispo, lugar da minha primeira namorada, neusinha de seo Ioiô e dona Davina, eu avistava o subaco fedendo e sentia uma alegria danada de ter nascido por aquelas bandas. Penso que minha primeira namorada, a neusinha que era muita bonitinha, também gostava do subaco fedendo. Ela tinha o costume de encostar aquele rostinho de anjo no meu peito, bem perto do meu subaco feden, aliás, cheiroso segundo ela.


Autor; Walter Teófilo Rocha Garrocho( Téo Garrocho) - Texto dedicado ao meu saudoso amigo Geraldo Magela de Almeida Prates, meu companheiro "subaqueiro da vida"- Barbacena, 11/02/2013