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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

AMARILDO, UM HERÓI BRASILEIRO QUE SUMIU

Sim, Amarildo é o novo herói brasileiro. Um herói como milhares de trabalhadores que levantam cedo e vão em situação precária para o árduo trabalho na luta pela sobrevivência nesta pátria de tantas desigualdades sociais. Pobre Amarildo, não nasceu em berço de ouro, não morou em palácios, não participou do mensalão e não teve advogados milionários para defendê-lo, não teve um enterro...
Amarildo? apenas um ajudante de pedreiro. Amarildo? apenas um trabalhador assalariado. Amarildo? apenas mais uma fotografia amarelada pendurada no varal da pátria que os políticos dizem ser de todos. Amarildo? ora bolas, ninguém vai se preocupar com o sumiço dele, assim devem ter pensado o ou os miseráveis que torturaram ou mataram  Amarildo.
E foi pensando em Amarildo que relembrei cenas de miseráveis torturadores que, em "nome da lei", ( Torturar é lei?) quebram portas de humildes casebres nas favelas brasileiras. Foi pensando em Amarildo que relembrei a invasão da nossa casa pela ditadura militar com seus algozes quebrando tudo e dando tapas e chutes na nossa família. Assim como Amarildo, muita gente já morreu ou sofreu nas mãos malditas de torturadores e assassinos que costumam ganhar louvores de alguns superiores pela valentia e dedicação. É verdade, tem muito valente covarde mesmo entre quatro paredes dos porões de tortura nesta pátria. Não podemos esquecer nunca que quem bate esquece e quem é torturado carrega sequelas irreversíveis para a vida toda. Não adianta fazer UPP enquanto o ranço da ditadura continuar atrasando a consolidação da democracia.
Onde está Amarildo? onde está Rubens Paiva? onde estão os corpos dos mortos e desaparecidos da Guerrilha do Araguaia? porque mataram o jornalista Herzog? porque mataram Lamarca? porque mataram Marighella? porque torturaram e mataram Stuart Angel, o filho de Zuzu Angel? Que pátria é esta onde a gente não conhece a verdadeira história? A quem interessa esconder tanta mentira? Até quando os menos desfavorecidos vão ser humilhados com tapas nos rostos por gente (?) fardada pagas com o dinheiro suado do trabalhador?
O que teria acontecido se Amarildo fosse o filho do Mega empresário Eike Batista? O que teria acontecido se Amarildo fosse filho de um comandante da Policia Militar? O que teria acontecido se Amarildo fosse filho de um General do Exército? O que teria acontecido se Amarildo fosse filho de um Ministro  da Justiça? Mas, ledo engano nesta pátria de aparências. Na verdade, Amarildo sou eu, é você peão que bate cartão para trabalhar. é você gari e faxineiro que limpa as ruas e os banheiros fétidos de repartições públicas de Brasília ocupadas por políticos que vivem mamando nas tetas há séculos. Amarildo é você bancário explorado pelo banqueiros, Amarildo é você Professor tão explorado e mal pago, Amarildo é você jovem do vale do Jequitinhonha que ainda em pleno século XXI, tem que sair da sua terra em Minas Gerais para cortar cana em São Paulo.
Enfim, Amarildo é mesmo mais uma fotografia amarelada pendurada no varal da pátria. Amarildo, somos todos nós clamando por justiça. Até quando? 


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado ao ajudante de pedreiro Amarildo da Favela da Rocinha no Rio de Janeiro que foi preso pela Polícia Militar de uma UPP, "prestou depoimentos" e sumiu, ou seja, nunca mais voltou para casa. Texto escrito em 07/08/2013, Barbacena-MG.




domingo, 4 de agosto de 2013

ZÉJÚLIO E GEGÊ, PREFEITOS ALMAS GÊMEAS?

Tem um novo jargão futebolístico muito usado nas Minas Gerais que diz: "Caiu no horto, tá morto". O referido jargão fez com que eu lembrasse de uma certa cidade onde o prefeito atual tem sido um retrato obsoleto do autoritarismo. Conhecido por seu ego vaidoso e unhas polidas, Gegê, segundo as más línguas, espalhava rumores e zumzumzum que se "caísse de novo na prefeitura, fulano ou sicrano tava morto". Como Gegê já havia passado por lá em algumas gestões, o receio que o mesmo voltasse era motivo de temor pela maioria. Mas, ele voltou embalado pela mídia tendenciosa e ovacionado em praça pública pelos, com licença da palavra, baba ovos de plantão.
Segundo especialistas ou cientistas da política, o prefeito Gegê pode ser comparado a caudilhos e ditadores do passado que nunca aceitaram dialogar com o povo e muito menos a participação popular nas decisões administrativas. Assim, Gegê paixão, aparelhado por entusiastas e saltitantes assessores, neófitos da política deslumbrados com o poder eventual, vem fazendo uma administração ao seu velho estilo: "Aqui quem manda sou eu", " Aqui sou o poder, coloco quem quero e tiro quem quero". Para justificar o linguajar comum e autoritário de Gegê, seus alegres e saltitantes assessores comentam em praças públicas: " Gegê não tem defeitos", "Gegê pode até roubar, mas Gegê faz". Nem é preciso explicar aos amantes da democracia o tipo de assessores que aparelham o caudilho que há muito tempo tem mamado nas tetas do poder público. É lamentável que nós os trabalhadores ao colocarmos nossas cabeças para descansarmos depois de um sofrido dia de trabalho, lembrarmos de que quem paga o salário deste tipo de picareta político e seus assessores, somos nós.
Ouvi dizer que recentemente Gegê paixão, acuado pelo alto índice de rejeição e baixa popularidade (se é que já teve), resolveu convidar um grupo para reunião em seu fechado gabinete. Segundo as más línguas ou boas línguas, muita gente do grupo convidado vinha se sentindo "esquecido" por Gegê e como estão ávidos para mamar também nas tetas da prefeitura (afinal 4 anos passa rápido), foram ao encontro do cacique para traçar planos administrativos em benefício do povo. Alguns dos convidados se sentiram á vontade tendo em vista que também já passaram pela experiência de mamar nas tetas da prefeitura e gostaram tanto que voltaram "nos braços do povo". Os mais novos iniciam, inspirados na vida pública de Gegê, a nojenta corrupção tão combatida nas recentes manifestações em todo o país. Como diz o Boris, "isto é uma vergonha". 
Estou escrevendo este texto para retratar o modo nojento de fazer política neste país. Este texto é dedicado aos amantes da liberdade de expressão, aos que entendem que a democracia vem do povo, pelo povo e para o povo e nunca é demasiadamente tarde lembrar ao povo que somente com nosso voto consciente poderemos acabar de vez com essa raça de políticos corruptos que vem mamando há muitos anos nas tetas do poder público e pagos seus salários com o suor do nosso rosto. 
Você que neste momento lê este texto, deve estar pensando que detesto política ou políticos. Pelo contrário, sempre fui e serei um entusiasta da politica com P maiúsculo. P de patriotismo, P de personalidade, P de pudor, P de princípios que tanto enobrece o caráter de homens do bem e mulheres do bem. Infelizmente, vivemos em uma pátria onde temos que aturar, com raríssimas exceções, mequetrefes no cenário político a nível municipal, estadual e federal.
O prefeito Gegê paixão e milhares ao seu estilo estão com os dias contados. Gegê, assim como muitos, não passará de um mequetrefe político esquecido. Quem viver verá...


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo garrocho)- Texto dedicado a todos que amam a liberdade e repudiam corrupção, tirania, prepotência, ditadura, servilidade. Em 4/08/2013, Barbacena-MG.

sábado, 3 de agosto de 2013

CARTA DE LORA, A PROSTITUTA POLITIZADA DE TEÓFILO OTONI

Há muito tempo que não recebia noticias de Lora. Até cheguei a pensar que a mesma havia falecido. Ela deve estar com sessenta anos. Penso que Lora ainda continua lúcida tendo em vista que seus escritos e lembranças do passado continuam vivos em seus pensamentos. Lora questiona o meu isolamento de alguns movimentos sociais e diz que estou fazendo falta. Segundo ela, eu tinha um carisma muito grande junto ás massas populares e de uma hora para outra larguei tudo, ou seja, arriei a bandeira da justiça social. Estou tentando uma resposta para Lora, vou dar tempo ao tempo. O sagrado diz que "tudo na vida tem um tempo" e assim, vou andando com fé.
Na carta, Lora diz: " Téo, sinto saudade de quando morava na roça. Sinto saudade do tempo em que subia nos pés de goiaba e ficava ali pensando mil e uma coisas. Eu comia goiaba com bicho e tudo. Hoje descobri que aquele bicho não me fazia mal. O bicho que me faz mal é o mundo em que vivo. Se eu ficar, o bicho come, se correr o bicho pega. Na roça eu tinha o dia com sol radiante e as noites estreladas igual pipoca na panela. Aqui, nunca mais olhei para as estrelas que na minha imaginação parecem ter viajado para outros corações menos sofrido que o meu. Toda vez que eu fico sentada na soleira do meu barraco, dá uma saudade danada dos banhos de rio que passava no fundo da roça. Eu ficava tremendo e as minhas mãos tão pequenas e inocentes pareciam estar rezando. Hoje, minhas mãos tremem devido ao alcoolismo e nem rezando elas param de tremer".
Analisando o início da carta, lembrei que muitos rios secaram ou secam na região do Vale do Jequitinhonha e aquela seca constatante e falta de água sempre foi uma eterna "bandeira" dos políticos que só vão ali de quatro em quatro anos e "prometem" acabar com a sequidão, "prometem" poços, barragens, etc. etc. Continuando a carta, Lora diz mais: " Téo, eu penso que o pobre só será feliz quando morrer. Tem uns religiosos que falam para mim que se eu aceitar Jesus, serei salva e vou ter morada no céu quando partir deste mundo. O que não entendo, Téo, é que desde menininha eu amo Jesus e nunca tive a riqueza que tem os religiosos que comandam certas igrejas. Eu gosto de ir em velório de pobre. Para mim o velório do pobre é menos rápido ao contrário do rico que é enterrado em caixão luxuoso e depois fica quase todo mundo da família brigando pela herança do defunto. No velório do pobre não tem muita tristeza. As pessoas falam para entregar a Deus o caminho do defunto e pronto. Todos se cumprimentam, contam piadas, falam bem do defunto e da família que serve cachaça e comida para o povo
Continuando, Lora diz que fica feliz quando morre um pobre na favela em que mora. "assim, acaba o sofrimento daquele que nunca teve assistência médica dos poderes públicos. Acaba o sofrimento da família para enfrentar fila de madrugada para pegar ficha do SUS, acaba o sofrimento de ter que pedir ajuda para comprar os remédios e acaba o sofrimento também de pedir ajuda para enterrar o falecido. "Pagamos para nascer e pagamos pra morrer", escreve Lora em letras garrafais.
Segundo Lora, " quando ela vê um pobre chorar, as lágrimas parecem pérolas caríssimas que eles nunca possuíram ou sonharam em possuir. Assim, segundo Lora, "as pérolas das lágrimas dos pobres são levadas pelo espírito até Deus. Lora diz que há muitos anos não chora e compara seus olhos secos como os rios do Vale do Jequitinhonha.
Em certo trecho da carta, Lora pergunta se tenho frequentado igrejas e diz : " Olha Téo, aqui todo domingo ainda tem missa na igrejinha, mas eu não vou mais. Até um certo tempo eu ia. Depois fui entendendo um pouco das coisas do mundo e parei de ir. Quando eu era mais nova e vendia o meu corpo, as minhas roupas eram melhores, cheirava bem usando perfumes caros e quando entrava na igreja sentia olhos invejosos sobre mim. Tinha muito homem que não sabia se rezava ou olhava para mim, inclusive o padre. Mas, o tempo passou, as rugas chegaram, as pernas afinaram e o perfume caro deu lugar ao bafo da cachaça. Foi ai que comecei a sentar no último banco da igreja e ...sozinha. Então pensei que não valia a pena voltar e dar satisfação ao mundo da minha fé. Descobri, lendo o livro sagrado, que " quando quiser falar com Deus, entra em teu quarto e ora com fé. Deus haverá de escutar, com certeza suas orações". Assim, diz Lora, tive mais alegria com Deus e os "anjos de luz". Tive mais paz e serenidade nas orações solitárias.
Finalizando sua carta, Lora pergunta se lembro do Élbio Pechir, o radialista dos humildes em Teófilo Otoni. Segundo Lora, o Élbio continua simples e ajudando muito pobre na cidade, inclusive ela. Lora diz que liga o rádio todos os dias pela manhã no Programa do Élbio na Rádio Téofilo Otoni. Ela diz que quem escuta rádio fica muito inteligente. Segundo Lora, sua avó dizia que todo alfaiate, sapateiro, cozinheira, barbeiro,, taxistas e outros motoristas são pessoas muito inteligentes devido serem bem informados através do Rádio, "desde que não sejam tendenciosos politicamente e socialmente", reitera Lora com sua sabedoria ímpar.
Pensando bem, vou responder a carta da minha amada dos anos 70. Afinal, ela continua tocando na minha alma tão carente, como a dela. Vou, numa noite de muitas estrelas, tentar lembrar dela que falava  para mim na década de 70: " Não pare Téo. Mas, se parar, olhe para o céu e você verá que as estrelas brilham. Enquanto elas brilharem haverá esperança na vida. Pense em mim, em Deus, e olhe de vez em quando as estrelas".


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado ao meu bondoso e justo amigo Élbio Pechir da Rádio Teófilo Otoni-MG- Élbio Pechir, o Radialista dos Humildes. Em 03/08/2013, Barbacena-MG.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

BELÔ, O CURANDEIRO DE ARAÇUAÍ

Tinha fama de benzedor e curandeiro. Naquela região era Deus no céu e belarmino na terra. Ganhou fama com apelido de Belô curandeiro. Nasceu e foi criado no meio de miseráveis de espirito e matéria abandonados á própria sorte pelos mais abastados. Belô, como a maioria, era caboclo comedor de torresmo, pirão e canjiquinha. Belô, que tinha raízes no Vale do Jequitinhonha, tinha fama também de roedor de pequi. Dizia sempre que adorava beber pinga. Dizia também que não bebia socialmente. Achava o termo muito elitizado e usado pelos bacanas da vida para disfarçar o vício.da manguaça.
O apelido Belô ganhou dos avós Nica e Fulô. Irreverente, Belô usava roupas extravagantes para o cotidiano da região, alem de vários penduricalhos pelo pescoço e tórax. Medalhinhas desde a santa de Aparecida ao neófito santo Frei Galvão. Para todos os santos de sua fé, Belô tinha uma história para contar ao povo de sua terra. Segundo ele, em suas orações o novo santo Frei Galvão havia curado um menino que pegou inflamação e febre após a retirada de 22 bichos de pé ou porco lá pelas bandas de Ribeirão das Almas, pequeno povoado entre Novo Cruzeiro e Araçuaí.
Segundo Belô, " a febre só baixou após uma semana de reza do terço e pedidos ao Frei Galvão". Assim, Belô criou prestígio. Até mesmo o velho padre Curió evitava criticar ou atacar as crendices do curandeiro. Afinal, Belô não atrapalhava a igreja do padre Curió que tinha o hábito de estar sempre alisando a vasta barba branca com manchas de nicotina, tendo em vista que padre Curió era chegado a um fumo de rolo muito apreciado naquela região.
Tudo ia dando certo até a chegada de um tal pastor Josias que fincou bandeira e doutrina no chamado território de Belô e padre Curió. Ai, Belô começou a "comer o pão que o diabo amassou" nas garras afiadas da língua do pastor Josias que a pretexto de converter o rebanho, espalhou que Belô tinha parte com o peludo e vermelho Demo, ou rabudo como queiram.
Acuado, Belô pediu proteção a todos os santos. Desde os mais requisitados até os menos invocados pelos fieis da igreja católica. Não faltaram promessas a São Benedito, São Cristovão, São João, São Pedro até chegar aos mais novos como Frei Galvão e a beata Inhá Chica.Experiente no trato com as massas populares, Belô foi mais longe e após uma viagem de romaria a Aparecida do Norte, trouxe centenas de medalhinhas, crucifixos, escapulários. Inspirado pela fé católica, construiu no terreiro da sua modesta moradia, uma pequena gruta de orações. Todos que ali passavam se benziam e pediam proteção de todos os santos, além de ganhar do velho Belô uma medalhinha milagrosa e um sonoro "vai com Deus e Nossa Senhora".
Foi ai que, para alegria do padre Curió e Belô, o pastor Josias sentiu que seus planos começaram a fracassar e "sua" doutrina perdeu terreno. Seus dizimistas já não contribuíam com os dez por cento e os bancos da sua igreja foram ficando vazios. "Um gato pingado alí, outro acolá..", comentava padre Curió em visita á casa de Belô, onde não faltava boa pinguinha da roça e o bom fumo de rolo de Araçuaí que padre Curió baforava meditando.
Pois bem, pastor Josias arrumou "as malas parecidas com ele" e foi pregar "sua" doutrina lá pelos montes do Estado de Roraima. Ao passar perto do quintal de Belô, parou em frente á gruta dos santos e fez um gesto de negação, indignação. Foi ai que Belô e padre Curió saíram á porta e juntos disseram: "vai com Deus e Nossa Senhora, pastor Josias", que, esporando o cavalo, nunca mais olhou para trás.
Belô tomou mais uma pinguinha e padre Curió preparou outro bazé de "fumo bão" da terrinha. Enfim sós!!!


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho-(Téo Garrocho)- Texto dedicado a Dona Nirinha do Distrito de Engenheiro Schnoor, Município de Araçuaí-MG. Dona Nirinha, uma guerreira pela fé católica e cristã naquele Distrito de Schnoor. Em 01/08/2013- Barbacena-MG

segunda-feira, 29 de julho de 2013

FUI CANDIDATO A CANTOR EM TEÓFILO OTONI

Em Teófilo Otoni, nunca fui candidato a nada. Lembro que fui presidente de um clube de jovens e por várias vezes um tipo de presidente dos inúmeros times de futebol varzeano que ajudei a formar na Vila Verônica onde passei minha infância e juventude. Até hoje, alguns amigos me questionam o fato de não ter sido um candidato a cargo político em minha terra natal. A todos respondo que não era meu caminho ser um candidato a cargo político na minha terra natal. Preferi, como muitos, ser um homem livre e observador dos acontecimentos em busca de pensamentos que melhorassem as condições de vida do povo sofrido da nossa terra que, apesar de muitos corruptos, ainda tem pessoas inteligentes, honestas e transparentes com as coisas públicas. Aos poucos, o povo vai conquistando a cidadania plena.
Voltando ao título do texto, na década de 60 e no início da 70, havia em Teófilo Otoni um programa de calouros todos os domingos no antigo cine vitória. Aquele programa era realizado e comandado pelo senhor Lourival Pechir, pioneiro do rádio em Teófilo Otoni. O programa tinha o nome de " Matinal de Calouros X7" e logo pela manhã a fila era imensa tanto de jovens e adultos que se espremiam para comprar ingressos. Realmente, o programa de Lourival Pechir era verdadeiro sucesso e campeão de bilheterias.
Eu devia ter uns 16 anos. Como todo jovem da época, a nossa diversão era jogar futebol ou Matinal de Calouros do senhor Lourival nos domingos até então pacíficos da pacata Teófilo Otoni. Pois bem, comecei a me assanhar nos caminhos do amor e arrumei a primeira namorada que morava ali perto do antigo morro do bispo. Só Deus sabe o que passei para namorar aquela moreninha de cabelos pretos, tendo em vista que já corri muito do pai dela e dos irmãos. Mas, era gostoso e até sinto saudade quando lembro das dificuldades para nossos encontros.
Interessante que minhas Ex. namoradas sempre moravam em morros. Morro do bispo, morro do cemitério, morrro do subaco fedendo, morro do cata quiabo, morro do Altino Barbosa, morro da caixa d'água, morro da concórdia e até um tal de morro dos velhacos. Para contrariar a história de morros, acabei casando com uma tal Maria das Dores que nasceu no povoado de Ribeirão das Almas no Vale do Jequitinhonha.
De todas as namoradas, guardo saudade da primeira. Penso até hoje que emoções como batimento do coração, tremedeira nas pernas e nas mãos, beijo gostoso escondido, carinho escondido dos pais, saudade com lágrimas e juras de amor eterno só acontece com a primeira namorada. E, foi para essa primeira namorada moreninha e de cabelos pretos que prometi cantar no programa de calouros do senhor Lourival Pechir. Lembro que recebi incentivo de uma "legião de fãs" (será?) e até mesmo do meu saudoso avô Ioiô Garrocho que só não concordava com meus longos cabelos ao estilo da banda revolucionária dos Beatles na época de muitas contestações mundiais, principalmente dos jovens.
A música escolhida foi "Querida" do famoso Jerry Adriani, um cantor de muito sucesso naquela época e que provocava suspiros e gritos das fãs alucinadas. Lembro que fui á Casa Miveste do saudoso senhor Oldack Miranda onde comprei uma bela calça de tergal e a tradicional camisa volta ao mundo e pasmem... na cor verde limão. O sapato tomei emprestado do meu amigo Jorginho maravilha. Era uma botinha de couro, salto alto e muito usada pelos jovens na famosa dança do Twist.
Passei uma brilhantina nos longos cabelos e lá fui cumprir a promessa. Em troca ganharia um beijo na boca escondidinho ali pelas bandas do morro do bispo. valia a pena passar no teste. Por aquela moreninha de cabelos pretos eu não podia dar "xabú", ou seja, negar fogo. E assim, dito e feito. O cine vitória estava lotado. Eu, com minha calça de tergal e camisa volta ao mundo na cor limão, junto com mais de vinte calouros nos camarins. Vez ou outra eu dava uma espiada por entre os buracos da cortina vermelha e...ai meu Deus, onde fui entrar.
O auditório lotado de gente. Eu suava mais que tampa de chaleira, as pernas bambas, questionamentos interiores: "o que que eu tô fazendo aqui?", "será que vai dar?" e ai veio o que eu não queria: Seo Lorival chama o próximo calouro que é...Walter Teófilo, o Téo. Misericórdia, as pernas falharam, empaquei que nem burro velho e o que é pior, veio um auxiliar do seo Lourival e colocou um pé na minha bunda dizendo em alto e bom som: "Vai, vai, que é a sua vez." Não fui e ainda me lembro que disse a ele com raiva mesmo: "Oia, cê num empurra que é pior". Pois bem, relembrando tudo que passou, fico a meditar que o amor pela menininha de cabelos pretos era capaz de tudo. Até mesmo ser candidato a cantor. Ê saudade, uai sô!!!


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado aos familiares do senhor Lourival Pechir, pioneiro do rádio em Teófilo Otoni e á menininha de cabelos pretos, minha primeira namorada- Em 29/07/2013, Barbacena-MG



sábado, 27 de julho de 2013

O MENINO QUE EMPINAVA PIPAS EM TEÓFILO OTONI

Otavinho pedreiro era um homem baixinho, mas, de uma sábia arte na construção civil. Ele tinha uma turma de homens que trabalhavam junto com ele. Se não me engano, Otavinho era chamado de mestre de obras pelos operários que trabalhavam com ele. Otavinho construía um tipo de casa com duas ou três janelas laterais nos lados esquerdo e direito. A entrada ou frente tinha apenas uma grande janela e ao lado uma varandinha semi aberta com pequeno portão de entrada, além de uma escada com poucos degraus.
Àquela época, os pisos eram feitos à base de cimento e logo após usavam um tipo de produto chamado xadrez que tanto podia ser na cor verde, vermelho ou amarelo. Aquele tipo de piso era luxo para a época e brilhava muito quando passavam cera relativa á cor. O brilho era conseguido com muito esforço através do antigo escovão, tendo em vista que raríssimas pessoas ou quase ninguém possuía uma enceradeira elétrica.
Otavinho pedreiro, assim como a classe operária, fizeram e fazem parte das minha lembranças de juventude, lembranças dos seus abnegados operários, lembranças do seu estilo de construção e lembranças das pipas. Sim, das pipas que alguns dos meus amigos filhos dos proprietários daquele modelo de casa, as vendiam penduradas nas sacadas das varandinhas. Eu passava pelas ruas e me encantava com as pipas de várias cores que proporcionavam aos meus olhos uma alegria imensa.
As pipas sempre tocaram em meus pensamentos. Elas sempre avivaram o sentimento de liberdade em minha vida que se fortaleceu mais ainda quando a ditadura militar e seus algozes prenderam meu pai e o torturaram nos porões da tal "redentora" que atendia unicamente a religiosos conservadores e um tal império chamado de Estados Unidos da América. Assim, quando eu perdia uma pipa, eu não sentia tristeza porque eu sabia que outro menino teria a liberdade nas mãos ao encontrá-la no topo de uma árvore ou em algum quintal da vida.
É bem provável que, assim como disse Paulo Ribeiro, sobre o imortal Darci Ribeiro, eu seja também um "passageiro da utopia", pois grande parte da minha vida foi de sonhos e tive até uma namorada que falou para mim que  eu "vivia no mundo da lua". Alguns sonhos bem simples consegui realizar e a maioria foi um fracasso, uma utopia, uma "derrota" da minha parte para os que nunca acreditaram em mim e nem preciso enumerar tanto sonho bom que tive para o povo brasileiro. Penso que a minha utopia e politização veio muito precocemente e assim me perdi numa pátria para poucos onde há mais de 500 anos são basicamente os mesmos (de pai para filho, netos, bisnetos...) embalados e enebriados pelo poder, ganância de lucros financeiros, riquezas materiais, ostentação e vaidade, egoísmo, prepotência, discriminação.Toda esta vergonha juntada á corrupção e o mais degradante: se dobrar aos poderosos, ao neo império que significa tudo relatado antes e tem a mania de meter "o dedo" naquilo ou no que não lhe lhe convém como se a América Latina e o resto do mundo tivesse que se dobrar aos seus pés. Sim, não WE, nós podemos!
Ai, eu relembro do Otavinho pedreiro, dos operários e das pipas. Ai, eu relembro dos inúmeros quintais onde elas caíram e levaram não só os meus sentimentos de liberdade. Ai, eu me lembro que fui mesmo um "passageiro da utopia" com muita dignidade e me orgulho de ter sido. Ai, eu me lembro que estão neste momento batendo à minha porta e para minha surpresa na terceira idade, é um menino como eu há muitos anos atrás na minha infância juvenil que diz: Seo Téo, Posso pegar a minha pipa que caiu no quintal do senhor? Resumindo. a liberdade não tem idade e nem preço!!!


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho-(Téo Garrocho)- Texto dedicado ao jovem vereador Thales, do Partido dos Trabalhadores em Teófilo Otoni-MG- Em 27/07/2013, Barbacena-MG.
   

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A PRISÃO DO VELHO NESTOR MEDINA EM TEÓFILO OTONI

Era março, início do mês, Nestor estava muito nervoso, mas eu não tinha nem uma ideia do que de fato estava acontecendo. Dona Conceição também estava diferente, ela que era de pouco falar, estava quase emudecida, falava baixo, quase num sussurro, acho que a ideia de não deixar Maneca dormir lá em casa foi dela. Conceição sabia da importância de Maneca dentro da estrutura do partido, e ela em nenhum momento até então ousava aborrecer Nestor quanto a problema do partido. Ela até não concordava com muita coisa, mas aceitava porque respeitava muito seu marido e entendia a importância dessas coisas para Nestor.
Nestor no início da carreira na Rede Ferroviária era telegrafista e dos bons e no início da caminhada ele tinha sido usado como telegrafista e talvez continuasse sendo usado pelo partido , transmitindo em códigos as ordens do partido na região. Fala-se até que quando estava preso lá em Neves, num determinado dia começou a receber uma mensagem em código Morse na parede de seu cubículo. No início pensou que poderia ser os militares querendo aprontar alguma com ele, depois de vários dias, resolveu responder as mensagens, e durante todo o tempo em que passou na prisão , diariamente conversava com esse companheiro que era médico na cidade de Governador Valadares, e se inteirava de todas as novidades da prisão e do país, mas nunca o conheceu pessoalmente.
E o fato de saber com antecedência muita coisa, lhe dava certa vantagem nos seus interrogatórios em seu IPM. E isso amainava o desgosto de estar preso. Os interrogatórios é que incomodavam muito e sessões de tortura psicológica desestabilizavam a estrutura emocional dos presos. Os tapas, e até mesmo o pau de arara era muito pouco se comparado com assuntos familiares, quando os algozes o chantageavam dizendo que tinham prendido algum filho, ou que sua mulher o tinha entregado. É claro que Nestor nunca acreditava e a comunicação com os presos diminuía muito esse sofrimento.
Nestor nunca falava, ou quase pouco, sobre torturas, era tabu. Ficamos sabendo através de outros presos, mas nunca tivemos dúvidas quanto a isso. A dignidade humana é algo fundamental no crescimento da humanidade, e a tortura tanto psicológica como física destrói qualquer ser humano, reduz a força do ser, por mais forte que seja. Tínhamos muita vontade de falar com ele sobre esse assunto doloroso tanto para nós como para ele, mas decidi que mesmo assim conversaria algum dia com Nestor sobre a tortura na prisão. Ele não morreria sem dar esse testemunho para mim. Algum dia eu iria ouvi-lo e isso aconteceu depois.
Nestor sempre foi um forte e sempre trilhou o caminho do bem, sempre defendeu os mais fracos, sempre buscou ser um homem honesto. Sua prisão para nós foi uma afronta, uma agressão. Eu menino ainda não entendia como defender socialistas pudesse ser considerado crime. Um homem que só pregava o bem e que tinha como meta na sua vida a retidão,  a família, e de uma hora para outra ser preso incomunicável, ser torturado e perder o contato com os seus. Isso era inconcebível.
Naqueles momentos sombrios da história do Brasil, passei a entender o surgimento de regimes como o nazista por exemplo. Pessoas que até então tinham vivido ao seu lado, passaram a te considerar inimigos de uma hora para a outra pelo simples fato de o seu pai ser taxado como inimigo público, você passar a ser considerado perigoso. Eles não sabiam na verdade o que era ser comunista, mas a propaganda se incumbia de aterrorizar e transformar em inimigos os seus, até então, pacatos vizinhos. Eu também não entendia o que na verdade era ser comunista quando diziam que Nestor era comunista. Eu achava exagero, desinformação e nunca concordava que Nestor fosse socialista como às vezes ele se autodenominava, e nem que o partido tivesse tanta influência no interior de Minas, como descobri depois.
Ele falava aquilo o dia inteiro, quase á exaustão e era interessante que só ele se sentia incomodado com aquilo. As pessoas não davam a mínima importância a uma coisa que deveria ser tão valorizada. Quando veio o parlamentarismo e com ele a posse de Jango, foi um verdadeiro orgasmo político para Nestor, mas, ele sabia que aquilo teria um preço. Os militares cobrariam um preço alto por aquela concessão e ele dizia que Jango deveria se cuidar e fosse necessário desse logo um golpe de estado e assumisse logo o controle da nação. Ele, Nestor, tinha certeza absoluta de aquilo iria acontecer. Ledo engano, jango tomou posse, mas, não aguentou a pressão dos militares, mesmo com Tancredo Neves como seu primeiro ministro num regime parlamentarista arranjado de última hora. Na verdade, Nestor não tinha muita confiança no Tancredo Neves. Ele achava que Tancredo fazia um pouco o jogo dos militares e depois do comício da Central do Brasil, a coisa ficou insustentável. Se Jango não partisse imediatamente para as faladas reformas de base, seriam os militares que dariam o golpe e foi o que aconteceu.
Quando os militares fizeram a revolução, Nestor a princípio não acreditou e passou a noite de 31 de março de 1964 acordado, chorando copiosamente e nos dias subsequentes não largava o pé do rádio em cima do balcão ou ouvindo as rádios Nacional e Tupi que já estavam censuradas, tentando filtrar alguma coisa. Após os três primeiros dias viu que não adiantava mais e chorou mais ainda. Chorou muito. Quando iniciaram as prisões dos seus companheiros, Conceição pensou que Nestor pudesse dar cabo à sua vida. Ela confessou isso mais tarde. Mas, ele teve que suportar aquilo até o dia da sua prisão que ocorreu em 6 de abril de 1964.


Autor: Jorge Amado Santos Medina, amigo médico em Teófilo Otoni-MG, filho do saudoso Nestor Medina, Ex. ferroviário, Ex. preso político e um dos homens mais inteligentes da história de Teófilo Otoni e Vales do Mucuri, São Mateus e Jequitinhonha. À família, com a qual me identifico nos relatos acima, o meu respeito e admiração em 25/07/2013, Téo Garrocho-Barbacena-MG. Texto da Revista Literária Café com Letras. Revista literária da Academia de Letras de Teófilo Otoni-MG, outubro de 2010, número 8, páginas 33,34,35.