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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O MUNDO É ASSIM

Sim, o mundo é assim. Pensava o aposentado Malaquias debruçado na janela do seu barraco, enquanto lá fora chovia sem parar. Toda vez que chovia forte sem parar, Malaquias tinha costume de debruçar sobre a janela e pensar. E Malaquias pensava, pensava, pensava...
Enquanto Malaquias pensava, vez ou outra, passava alguém na rua. Um barro vermelho já preocupava, tendo em vista que toda vez que chovia muito, as pessoas que estavam em cima do morro não desciam e as que estavam em baixo não subiam. Ora, pensava Malaquias, se naquela região chovesse durante um mês, os de baixo não subiriam tão cedo e os de cima não desceriam tão cedo. Assim, aquela região sofreria situações complicadas e acabou acontecendo.
Na região de baixo moravam pessoas mais estáveis financeiramente que tinham de tudo materialmente, mas ,segundo elas, viviam muito solitárias, além de dependerem das pessoas de cima que segundo elas viviam felizes apesar das carências materiais. Os de baixo tinham contas correntes milionárias e até cofres camuflados em paredes com segredos que só eles sabiam. Da turma de cima só Deus sabia. Só Deus...
E Malaquias ficou ali um mês pensando. Em cima ninguém descia e em baixo ninguém subia até que a chuva deu uma trégua e parou. Assim também Malaquias parou de pensar. Então, um passarinho passou voando, o galo de dona Efigênia voltou a cantar, o cachorro do senhor Zequinha voltou a latir e dona Candinha tentava andar pelos cantos da rua barrenta de cor vermelha.
Malaquias foi até a sala e contou para Tuninha que o mundo é assim: "Um depende do outro e ninguém consegue viver só. Os estáveis financeiramente também sofrem e se igualam aos menos estáveis financeiramente. Na dor os opostos se juntam, se unem. Na dor, sofre mais quem vive só e para saber o segredo de tudo só Deus, que sabe até o segredo do cofre. O cofre da sabedoria!!!".
Assim, Malaquias que ficou ali um mês pensando, alisa a cabeça do seu velho cachorro Bobi Ringo enquanto calça um velho sapato preto e resolve sair. Antes, passa na cozinha, come duas bananas caturra e bebe um copo com café e leite. A mulher Tuninha que tricotava uma touca de lã, ao vê-lo saindo, avisa em voz alta: " Cuidado meu velho para você não se perder no mundo".
O pensador Malaquias já está aprendendo a senha do segredo do cofre da sabedoria onde está escrito que o princípio de tudo é o temor a Deus, um ser superior. Feliz com tudo, o amigo cachorro Bobi Ringo abana o cabo e se despede de Malaquias que desce o morro pelos cantos da rua barrenta de cor vermelha, assim como dona Candinha e vai ao encontro da turma de baixo que ainda sofre por não conhecer o segredo da verdadeira sabedoria.


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho (Téo Garrocho)- Texto dedicado ao meu amigo Magno Siqueira(Maguinho), empresário e fazendeiro em Araçuaí-MG. Em 26/08/2013, Barbacena-MG.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

ANALISTA POLÍTICO EM TEÓFILO OTONI

O senhor Juvenal trabalha há muitos anos na função de porteiro em um condomínio em Teófilo Otoni. Juvenal está próximo da sua aposentadoria e confessa que já não tem ânimo e o mesmo vigor de antes para o trabalho que executa no horário noturno. Juvenal confessa que de uns tempos para cá, "a saudade da cama à noite tem se tornado incontrolável". A verdade é que Juvenal precisa aposentar e segundo ele "tá na hora de pendurar as chuteiras" e oferecer a vaga para um mais novo. Juvenal acredita que tudo na vida precisa se renovar e " A vida é assim mesmo, Deus trabalhou seis dias e descansou no sétimo", completa Juvenal meio abatido como se fosse um boi a caminho do matadouro ou um moribundo visualizando entre nuvens a porta do Laborum Meta ou cemitério como queiram.
Sempre que passo ali pelas bandas do Bairro Marajoara, gosto de trocar um dedinho de prosa com senhor Juvenal que ficou meu amigo a partir do momento que dei atenção a ele com seus mais de sessenta anos e em silêncio escuto suas estórias e histórias de vida. Senhor Juvenal diz que gostou de mim a a partir do momento em que dei atenção a um idoso. Segundo ele, " O idoso é muito esquecido no Brasil e precisa ser olhado com mais carinho". Tenho convicção que o Juvenal porteiro é mesmo um filósofo, um observador nato de todos os movimentos da vida com uma ética de fazer inveja a muito homem diplomado em Universidade. Admirado com meu novo amigo, passo pela portaria do prédio onde trabalha e faço questão de escutá-lo. Assim aprendo um pouco mais sobre a sabedoria popular e seus inúmeros tipos que tanto engrandecem a cultura no Brasil.
Certa noite, ele convidou-me a conhecer seu ambiente de trabalho. Ele disse que são raros os que ele deixa adentrar ali. Segundo ele, "por motivo de segurança". " Não importa se ganho pouco ou muito. Preciso cumprir minha obrigação com meu patrão que tem sido justo comigo e...quem é honesto no pouco é honesto no muito", completa Juvenal que me encanta com sua tão decantada honestidade e transparência em uma pátria de inúmeros políticos que roubam o dinheiro publico.
O ambiente de trabalho é simples assim como o ocupante do horário noturno. Senhor Juvenal tem um pequeno rádio portátil e uma televisão. Segundo ele, os dois aparelhos trazem muita informação para que ele possa saber o que está acontecendo no mundo atual. Segundo Juvenal, ele gosta muito de documentários que falam de história passadas. Segundo ele, são maravilhosas as histórias dos Incas, Maias, Astecas, além das histórias de outros países milenares. Ele gosta de falar sobre a Revolução Francesa e sente emocionado quando escuta o hino francês que em certo momento diz: "Vamos filhos da pátria, o dia de glória chegou...".
Senhor Juvenal possui um rico vocabulário que às vezes se mistura com um linguajar simples de homem do semiárido mineiro. Pode-se afirmar que o mesmo é um autodidata. Pelas palavras e argumentos conclui-se que o Senhor Juvenal "entende superficialmente" da teoria de Marx e analisa em sua simplicidade de entendimento as vantagens e desvantagens do Capitalismo, Socialismo, Monarquia, Parlamentarismo, Comunismo e muitos outros "ismos".
Em relação a Teófilo Otoni, ele em sua simplicidade de análise, diz que a mesmice na política é muito visível e "é bem provável que o ciclo da mesmice esteja no final". "Deus permita e o povo conscientize que já passou da hora de mudar a mentalidade e criar novas lideranças numa terra onde é comum escutar que "fulano rouba, mas faz". Ou a famosa e antiga citação que em Teófilo Otoni "tem cabeça de burro enterrada e nada vai para frente".
Assim como o senhor Juvenal, eu também observo a política de Teófilo Otoni e da minha pátria. Confesso que sinto vergonha de ver que em Teófilo Otoni e em minha pátria existem políticos que são profissionais no engôdo ao povo. Este mesmo povo a exemplo de Juvenal porteiro que põe a cabeça no travesseiro e pensa: "será que minha cabeça é de burro e foi enterrada lá na praça Tiradentes de Teófilo Otoni?". Então, está na hora de acordar após décadas de desmandos e enganação. Que tal o povo da cidade do amor fraterno mandar a turma de mequetrefes corruptos fazer figuração no programa Zorra Total onde tem um "esperto" (como em Teófilo Otoni) em política com p minúsculo que fala: "Meu negócio é por trás". Cruz credo, cruz credo...
Qualquer noite vou visitar o senhor Juvenal. Tenho sentido sua falta. Quero analisar junto com ele os movimentos sociais que estão acontecendo na tão falada pátria de todos. Até os velhos estilingues e bolinhas de gude voltaram a ser referência e vendidos nos atos de protesto. Lembro que já participei de passeata contra a ditadura militar e soltei um saco daquelas bolinhas de gude nas ruas. Tarefa cumprida e não me arrependo. Afinal, ditadura e corrupção só se combate com povo nas ruas. Espero e acredito que o porteiro Juvenal participará dos protestos que virão em breve. Não foi a toa que observei um velho estilingue preso ao seu velho cinto e matar passarinho ele nunca matou, sempre foi um amante da natureza, da terra, da pátria.


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho( Téo Garrocho)- Texto dedicado á  jovem Wilmeia Garrocho Noronha, minha querida sobrinha e professora em Teófilo Otoni-MG- Em 23/08/2013, Barbacena-MG.

JOVEM GUARDA DE 70 EM TEÓFILO OTONI

Eu sempre fui chegado a um dedinho de prosa com alguns amigos e amigas que marcaram minha vida em Teófilo Otoni. Até um certo tempo morei ali e após 1974 fui andar pelo Brasil onde conheci povos maravilhosos e aprendi a aprimorar minha vida em convívio com diferentes culturas.
Mas, as raízes não esquecemos e quando posso retornar à minha terra natal, fico sentado na pracinha com alguns daqueles amigos ou amigas que a gente não consegue esquecer e o assunto não poderia ser outro: Lembrar de fatos passados que marcaram de alguma forma nossa convivência em Teófilo Otoni. Para ser sincero e sem muita delonga, nossa turma era irreverente para os padrões da época. Havia gente que comentava sermos nós um povo "pinel". Havia sempre, naquela turma, uma roupa diferente, sapato diferente, pulseiras de couro, cabelos longos, músicas tipo rock ou Wandré, forma de pensar diferente numa época de ditadura militar, onde os direitos individuais e liberdade de expressão foram banidos do contexto da sociedade.
Para se juntar á nossa turma, o cara tinha que assumir a irreverência e suportar as línguas afiadas de uma sociedade conservadora que, por vários motivos, ainda não estava preparada para entender aquela forma de pensamento onde o importante para nós era a contestação a grande parte de conceitos, muitos arcaicos, que tentavam nos impor nas escolas, igrejas e nas ruas.
Lembrando daqui e dali, nunca vou esquecer do meu inteligente amigo "Barracão", irmão de Dr. Walcir Costa, que fez um aparelho de rádio transmissor. Eu e Barracão sintonizávamos o aparelho na onda da rádio local e o povo da Vila Verônica só escutava o que a gente transmitia ao vivo. Meu Deus, aquilo quase deu "um bode do diabo". Teve muita gente da turma dedo duro da ditadura militar tentando nos enquadrar na famigerada e arcaica Lei de Segurança Nacional. Quanto atraso, quanto atraso...
Os cabeludos, como eu, eram muitos e uma certa vez tive que correr muito de um pessoal  dali do morro da Copasa que, de pedras em punho gritavam em coro: "Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é...será que ele é...". Cruz credo, cruz credo. Mas, depois veio o cabeludo Dida, o cabeludo Petrônio de Jupiro, Peixe Cobra, Rossine, Tadeu Franco, Paulinho e Aécio Dantas, Jadir Barbosa, Nuno Melgaço, Zé Ramiro Geoking, Jorginho Maravilha, Omar Garrocho, Fernando Taipina, Artur Guedes( Tusa). Jorge Gomes, Mauricio "Negão" e muitos outros.
Para terminar a lembrança daquela turma de "doido" para a época, nunca vou esquecer das inúmeras boites que existiam em Teófilo Otoni e algumas fascinavam nossos olhos e desejos com aquelas luzes negras, a exemplo da Boite Pilão, Boite Obaluaê, Itaoca e muitas outras. Para terminar noites de irreverência, a gente dava um pulinho ali pelas bandas do Chico Sá, a maior zona boêmia do Nordeste de Minas Gerais. Quem conheceu não esquecerá jamais. Assim como o velho trem a lenha da antiga Estrada de Ferro Bahia Minas, tudo ficou mesmo na saudade." Velhos tempos, velhos sonhos.."


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho (Téo Garrocho)- Texto dedicado a todos aqueles que preservam a história da nossa terra natal, Teófilo Otoni. Em 23/08/2013-Barbacena-MG.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

OS IRMÃOS DO PEDREIRO AMARILDO EM TEÓFILO OTONI

Zé pereba e Pedro piolho são irmãos e fincaram na entrada da favela do subaco fedendo em Teófilo Otoni, uma placa de papelão com os seguintes dizeres: " Peroba e Piolho, fazemos bicos". Na verdade, tanto Piolho quanto Pereba são nada mais que dois trabalhadores desempregados e sem nenhuma qualificação que procuram desesperadamente uma oportunidade para ganhar alguns trocados na luta pela sobrevivência na tão falada pátria de todos.
Pereba diz que ultimamente tem sentido fome de uns tempos para cá. Sem trabalho fica difícil e "roubar não sei e nem quero". Já o irmão Piolho diz que "é triste viver nessa situação e tem dia que a gente até come talos de colonhão". Para quem não conhece, colonhão é um tipo de capim vistoso muito apreciado pelas vacas, bezerros e garrotes. Piolho diz que até lembra da música de Zé Ramalho intitulada de Vida de gado.
Pereba comenta que entende de tudo, ou seja, conserta ferro elétrico, chuveiro, panela de pressão, pia entupida e muito mais. O irmão Piolho entende de cuidar de jardins, limpa e roça quintal, lava carros, engraxa sapatos. Tudo indica que os dois irmãos são mesmo entendidos na arte de fazer bicos, coisa comum nos brasileiros tão criativos. Mas, não estão conseguindo clientes.
Dona Maricota, beata fervorosa da igreja de Roma, sempre que pode, leva umas coisinhas de comer para os dois irmãos que perderam os pais muito cedo. Segundo Dona Maricota, os pais morreram devido ao vício da malvada cachaça. "Conheci os pais dos dois. Bebiam cachaça de dia, de tarde e de noite. Morreram dormindo que nem passarinho", lamenta a Bondosa Dona Maricota segurando o livro sagrado por baixo do subaco ou axilas como queiram. 
Diferente de Dona Maricota, o autoritário guarda municipal Tim que é mais conhecido por Tim "sapo" e tem um imenso bigode de dar inveja ao mais tradicional gaúcho, alfineta: " Não passam de dois vagabundos. Comem e dormem o dia todo". Segundo o povo da comunidade o guarda Tim "sapo" não passa de um metido a rico só porque trabalha para a prefeitura, sinônimo de "superioridade" na favela.
Lurdinha, uma ativista social e contrária ao pensamento do guarda municipal, diz que o guarda "pensa que é polícia e quer mandar na gente. Ah! coitado, foi-se o tempo da ditadura no Brasil ". Esbraveja levantando o punho esquerdo e beijando o símbolo do MIP,( Movimento Independente Progressista). Movimento este, criado por um ex. Vereador comunista muito querido em tempos passados.
Vagabundos ou não, os irmãos Pereba e Piolho são na verdade seres humanos excluídos do contexto social vivendo ali na favela do subaco fedendo. Amparados sempre quando possível por bons corações a exemplo de Dona Maricota e defendidos por algum ativista social a exemplo de Lurdinha do MIP, eles ainda terão que suportar sempre o autoritarismo, prepotência e discriminação do guarda Tim"sapo" que é metido a polícia, em pleno século XXI. a querer mandar no povo, torturar o povo e matar o povo se possível.
Assim como Pereba e Piolho, o irmão operário Amarildo, ajudante de pedreiro da favela da rocinha são cópias fieis da pátria de todos(?) chamada Brasil. Até Quando???


Autor: Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado ao meu amigo de militância política em Araçuaí-MG, Dr. Eustáquio Azevedo Rocha, o popular Tute Advogado. Em 16/08/2013, Barbacena-MG. 



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

FUTEBOL ANTIGO EM TEÓFILO OTONI

Quando a gente pensa que já viu ou sabe de tudo na vida, aparece sempre alguma coisa nova para justificar que somos realmente eternos aprendizes. Não sei explicar o dom ou doença, mas tenho o costume ou mania de não esquecer de fatos passados. Eu tinha um tio de nome Silvio que era carinhosamente chamado pelo apelido de "Tussa" e comparado com ele sou um iniciante na arte de relembrar fatos passados. Tussa sabia de tudo e inclusive em dia de finados ele ficava no cemitério falando detalhadamente como sicrano ou beltrano havia falecido, etc.etc.
Mas, voltando á minha memória, uma certa vez ao acompanhar um candidato a deputado em visita a um pequeno povoado onde trabalhei e residi por alguns anos e já no veículo em que estávamos, comecei a falar do lugar citando nome e apelidos de quase todos os moradores como é de costume em pequenas Vilas e povoados de Minas Gerais.
Num certo momento, o então candidato perguntou-me há quanto tempo eu tinha partido daquele lugar e quando respondi, ele disse: "Olha rapaz, você está de parabéns. Sua memória é impressionante. Se fosse eu, já teria esquecido de quase todos". Acostumado ao esquecimento de políticos, nem questionei o tal cidadão.
Assim, vez ou outra, fico lubrificando a máquina da memória que me trás coisas simples, coisas alegres e a maioria coisas tristes que já presencie neste mundo tão carente de amor e fraternidade. Assim, escrevo para minha satisfação e penso, para poucos leitores e amigos que me honram com as leituras dos meus simples escritos. Confesso que não tenho pretensão de ser conhecido pelos escritos ou pelo que penso. Sou avesso a honrarias, mídia, sucesso e por ai vai. Tive tantas decepções na minha vida que não me preocupo com vaidade de ego, coisa comum em alguns seres humanos.
Gosto da escrita simples como simples fui e sou. Gosto de escrever aos simples que foram maioria na minha convivência pessoal. Gosto de escrever aos que ficam em silêncio lendo "meu coração", até porque sempre fui um carente de ombros amigos, principalmente na minha infância e juventude. E, nem preciso explicar o motivo de tanta carência...
Lubrificando daqui e dali a minha memória, lembrei de um amigo em Teófilo Otoni que se chamava Mário e tinha o apelido de Mário "Cavaquinho". Ele, assim como eu, gostava de futebol. Certa vez, o Mário cavaquinho trouxe um cara para jogar no nosso time. Tudo bem. Só que olhei para o cara e observei que o cara era "caôlho" e cheguei até o Mário e falei: "Cavaquinho, o cara é cego de um olho". E, Mário respondeu: " Olha aqui Téo, em terra de cego, quem tem um olho é rei".
Cego ou não, o tal sujeito jogava bem futebol e não gostava de ser chamado pelo nome correto. Ele jurava de pés juntos que "os pelos arrepiavam" quando a torcida feminina gritava em coro: " Vai caôi, faz mais um gol prá gente ver".
Pois bem, para encerrar lembranças de deficiência visual, comentei o caso do jogador Caôlho com meu vizinho José que mudou-se de São Paulo e reside próximo á minha casa. Sujeito de quase setenta anos, sério, boa índole e que sempre me convida para acompanhá-lo em cultos de uma igrejinha de fé distante uns 10 quilômetros via BR asfaltada e com muito movimento de tráfego de veículos.
Muito religioso, José, ao escutar meus comentários dentro do veículo, diz que "essas manifestações são coisas de Deus e quando Deus quer, até um cego dirige um carro". Confesso que senti um frio na espinha dorsal quando meu amigo José completou seu raciocínio: "Veja você Téo, eu sou cego de um olho e dirijo tranquilamente. Coisa de Deus".
Como sempre fui avesso a andar de carro, é bem provável que eu não aceite mais o convite do amigo José para acompanhá-lo. Vou continuar sendo mais um cego em terra de rei com um olho só. Cruz credo, cruz credo!!!

Autor:Walter Teófilo Rocha Garrocho(Téo Garrocho)- Texto dedicado ao meu grande e bom  amigo de juventude, Marivaldo Aragão ( Maroto), um grande jogador de futebol em Teófilo Otoni. Em 12/08/2013, Barbacena-MG.




sexta-feira, 9 de agosto de 2013

TIO CHICO EM TEÓFILO OTONI

Residia na Vila Jacaré nesta cidade nos idos da década de 50, um senhor com cerca de 90 anos de idade chamado por todos de "Tio Chico".
Quando mais moço teria trabalhado de carteiro levando correspondências a algumas localidades da região, em malotes de couro cru, na maioria das vezes nos próprios ombros e mais léguas a pé.
Quando o conheci, ele morava em companhia de Dona "Maria de Salvador", uma afrodescendente que herdou o apelido nominal do marido português do seu primeiro matrimônio. Ela era poucos anos mais jovem que ele e ambos moravam em uma casinha simples como muitos.
Andava escorado em sua bengala que usava para espantar cães raivosos e defender-se de meninos maldosos. Porém, a garotada mais comportada era premiada com balas, doces e pirulitos. Era uma festa quando aquele senhor aparecia na comunidade. A meninada ficava eufórica e logo gritavam: "Lá vem Ti Chico...lá vem Ti Chico!..."
Era característica daquele idoso uma indumentária em desuso: terno escuro, calça e sapatos também muito gastos pelos anos de uso. Era um senhor que a todos cativava com seus conselhos e experiências de vida. Gostava de sair andando pela vila. Parecia que só Deus e o passar dos anos é que pudessem trazer obstáculos aos seus passos.
Um senhor muito brincalhão, batendo delicadamente com sua bengala na cabeça das pessoas. Dona Maria, sua esposa, trabalhou na Fazenda do capitão Leonardo.
Fontes confiáveis afirmam que o senhor Francisco Morais, o nosso "Tio Chico" teria nascido em 20 de janeiro de 1860 e falecido em 1975, aos 115 anos de idade.


Autor: Leuson Francisco da Cunha,  amigo e Membro titular da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Texto da Revista Literária Café-com-Letras da Academia de Letras de Teófilo Otoni. Outubro de 2010, página 31. Em tempo: peço licença ao nobre, bom e justo amigo Leuson, para dedicar este seu texto maravilhoso a todos os avôs de Teófilo Otoni e do mundo. Em 09/08/2013.

A TERCEIRA É A MELHOR

Até os anos 70 do século anterior, havia pouca preocupação com a forma pela qual se intitulavam as pessoas em cada faixa de idade. Nascia-se criança, passava-se pela adolescência e juventude, considerava-se sério quem chegava aos 30 e em determinada fase aparecia a meia idade. Pejorativa era a denominação de "coroa" (para os dois sexos), até que, após os 50 anos, estava carimbado: é um ancião.
É claro que muitos fatores sinalizavam a presença da velhice. Como desagradavam, por exemplo, ás mulheres, as rugas, as manchas na pele, a mudança da cor do cabelo da cor natural para um branco não muito conveniente. Outras dificuldades não tinham preferência de sexo: podia ser a osteoporose, a diminuição da capacidade visual e/ ou auditiva para alguns, a perda de habilidades, a lentidão, o raciocínio, a memória menos ativa, o mal de Alzhmeir ou a famigerada incontinência urinária.
Por orientação médica, passou-se a ter a devida cautela a partir de uma determinada idade. Não foi muito fácil. Tanto os homens quanto as mulheres mostravam-se arredios á necessidade de comparecer a uma consulta médica, mesmo sabendo que essa seria a melhor forma de se acautelar contra alguns tipos de doença que, atuantes após uma determinada faixa de idade, podem ser neutralizadas quando detectadas em tempo hábil.
É possível que tenha demorado algum tempo, mas hoje a história pode ser contada, felizmente, de outra forma. Ao chegar aso 40 anos, todos estão se preocupando com as visitas aos consultórios e clínicas médicas. A resposta foi imediata: a longevidade foi alcançada e os antes "velhos" modificaram alguns vocábulos dos nosso dicionário: tanto poderia ser a "maior idade", quanto a "sobriedade" e, ao ultrapassar os 60, veio a "melhor idade".
E uma série de benesses passou a fazer parte do cotidiano daqueles que, depois de terem dado sua contribuição efetiva para a formação de sua família e transmitido lições de cidadania para aqueles que lhes foram próximos, não necessitam suportar longas filas para atendimento em situações diversas, tem direito a passe livre em coletivos, pagam apenas meia entrada em cinemas e outras casas de espetáculos, a preferência é deles para os leitos hospitalares, além de contar com a boa vontade dos órgãos públicos e entidades assistenciais, preocupadas em incentivar atividades que possam tornar mais felizes aqueles que chegam á "melhor idade".
Estou quase na ultrapassagem dos 60- o meu velocímetro já encosta nos 70-, com a ventura de ter a alegria de ser pai de três filhos(dois homens e uma mulher) maravilhosos e avô de sete lindos netinhos. Viver é muito bom! Agradeço a Deus, á minha esposa Geralda, a meus familiares e a meus amigos, conquistados nas diversas áreas em que atuei profissionalmente, pela efetiva contribuição que me foi concedida para a insofismável prova de que a terceira idade realmente é a melhor.


Autor: Arnaldo Pinto Júnior, Jornalista e professor de Matemática- Texto da Revista Literária Café-com-Letras da Academia de Letras de Teófilo Otoni, páginas 58 e 59, número 8- Outubro de 2010. Em tempo: "com licença do meu bom bom e justo amigo professor Arnaldo Pinto Júnior, dedico o seu maravilhoso texto a todos os pais e avós no seu dia". Em 10/08/2013, Barbacena-MG.